terça-feira, 6 de janeiro de 2009

UMA ENTREVISTA


Salve, salve... Começamos o ano com uma entrevista com o mano Danilo George Ribeiro. Esse mano natural de Ivaiporã, zona norte do estado do Paraná, veio com os pais pra Foz com dois anos de idade e hoje se considera um cidadão iguaçuense. Se formou recentemente em História na UNIOESTE de Marechal Cândido Rondon e elaborou trabalho de conclusão de curso sobre o Hip-Hop de Foz do Iguaçu. A seguir a entrevista realizada no bairro Cidade Nova no mês de dezembro com esse maluco que tem 22 anos de idade e muita idéia pra trocar.

Z – Porque você resolveu ir pra outra cidade estudar história?

Danilo – Bom, quando eu pensei em fazer história eu pensei em buscar uma universidade pública. Eu acho que é um direito nosso, né, tentar buscar uma universidade pública uma vez que a gente paga imposto, paga pro Estado pra ter esse direito. O certo seria se a gente tivesse um curso de história público em Foz; que possibilitaria pra mais gente ta fazendo esse curso, não só esse como outros, né. É uma vergonha uma cidade como Foz não ter uma universidade pública que abrange outras áreas outros cursos né, porque a UNIOESTE aqui ela ta voltada principalmente para a área de elétrica que está destinada a Itaipu, ta destinada ao setor hoteleiro, curso de hotelaria, curso de administração, e de certa forma a área de humanas aqui ficou só com letras e pedagogia. E Foz é uma cidade que pode ser considerada um amplo laboratório social, então pras pessoas aqui poderem cursar humanas seria espetacular, o que nós assim poderíamos aprender com a cidade e o que ela pode nos trazer. Eu fui pra Rondon devido eu ta buscando um curso público, mas de fato a questão financeira é um obstáculo né, ela é complicada, né, porque eu tive que me deslocar, eu não pago lá pra estudar, mas eu tenho que pagar aluguel, eu tenho que pagar uma série de coisas, né. Eu venho de uma classe média e devido eu estar nessa classe média eu tenho a possibilidade de ta saindo aqui de Foz. Agora, quantos irmãos queriam ta fazendo uma faculdade fora e não tem a oportunidade, a possibilidade de ta estudando. Então eu acho que é uma coisa que a gente tem que ta aí voltando e cobrando dessa cidade, a cidade já passou dos 300 mil habitantes, tem uma grande juventude e não tem faculdade pública que atenda a população.

Z- Tem alguma razão em especial em optar pelo curso de história?

Danilo – Olha, eu acho que um pouco de eu gostar de história, acho que é culpa de meus professores, né, eu tive excelentes professores na graduação, não só de história como redação, geografia. Matemática exatas no caso, eu sempre fui mal, nunca me interessei, sempre tive dificuldade, física, química, esses negócios nunca me despertaram interesse. Quando eu pensava no mundo, quando eu pensava num monte de coisa que me incomodava a área de humanas parecia que me instigava, daí eu escolhi o curso de história de certa forma pra subsidiar e tentar explicar essas coisas. Mas de fato muita coisa não tem explicação, né, a gente às vezes busca explicação e só se confunde mais, o mundo é muito contraditório. Eu posso dizer que nunca gostei de fazer cálculos, mas sempre gostei de ler e de escrever, então eu vi que a história assim, a área de humanas era a minha área. Eu também nunca me interessei pela área de saúde, eu odeio hospital, eu não gosto, nunca pensei em trabalhar de terno, nada assim muito formal. Então dessa forma eu sempre achei interessante pensar em educar, em ta aprendendo com os alunos, ta conhecendo pessoas, né. O meu pai de certa forma ele é professor de artes marciais, né, não é professor de ensino, mas ele sempre trouxe essa experiência pra casa de ta trabalhando com gente, com alunos, de ta aprendendo com eles, acho que isso também me influenciou um pouco.

Z – E dentro da história por que você escolheu o Movimento Hip-Hop de Foz do Iguaçu como tema do seu trabalho de conclusão de curso?

Danilo – Olha, eu posso dizer que na verdade não foi assim, a gente não entra na faculdade imaginando o que a gente vai escolher, talvez o objeto de estudo que escolha a gente né, é um processo de 4 anos aonde a gente estuda diversas coisas, diversos processos históricos; mas de fato no ano de 2005, o ano que ingressei na UNIOESTE eu fiz um trabalho com a professora Geni Rosa Duarte que é minha orientadora, no qual a gente tava organizando um acervo de vinis, né, de músicos antigos, então naquele caso eu fui me interessando em trabalhar com história e música. Então, assim, aquele trabalho foi importante porque eu conheci Jorge Bem e diversos músicos mais antigos no vinil através dela, conheci outros sambistas como Sinhô, né, até como Almir Guineto entre outros e fui organizando um acervo. A partir daí eu fui percebendo que a música ela tem uma capacidade, você faz uma música e dentro da música tem um contexto histórico, tem uma processualidade, então eu escutava aquele samba, na história tinham trabalhos escritos que datavam a relação do samba com o cotidiano do morro, as musicas daquele período narravam por exemplo a movimentação dos moradores, a relação com a polícia, os malandros, então isso me chamou bastante atenção. Então posteriormente nesse trabalho eu comecei a perceber a relação histórica que tem a música com a cidade. Só que a maioria desses sambistas falavam da realidade do Rio de Janeiro, né, a partir daí eu mergulhei na área de historia e musica e fui percebendo, até a questão da negritude que é um traço marcante do samba de raiz. E no começo de 2006 eu montei um projeto, ganhei uma bolsa de iniciação científica no qual eu busquei trabalhar com 4 compositores, né, que foi o Sinhô – um compositor de samba, boêmio -, foi o Chico Sience, foi o Jorge Ben e foi o Mano Brown. Então eu peguei praticamente 4 cidades diferentes, que de fato o Sinhô falava um pouco da boemia ali de uma parte do Rio, da capital, o Chico Sience falava do Recife, o Mano Brown falava da zona sul de São Paulo, né, e até o Jorge Ben falava do Rio, mas o Jorge Ben não falava tão da periferia, ele falava mais da área do litoral ali, a questão da praia, a questão do rolê, do futebol, do Maracanã, de outras coisas, né. Mas ali naquela pesquisa eu fui percebendo, né, eu fui buscando tentar entender mesmo sem conhecer naquela época o Rio, um pouco da história do Rio, e textos de historiadores me ajudaram a subsidiar, mostrando que aquela música não tava vaga, não tava solta, ela tava relacionada ao vivido deles, né. O que me chamou a atenção foi que, eu sempre desde os 12, 13 anos gostei muito de rap, né.

O som do Racionais assim eu posso dizer que foi algo muito marcante na minha vida, eu acredito que como muitos eu conheci eles através do Sobrevivendo no Inferno, no caso a música que mais me chamou a atenção quando eu era moleque foi o Mágico de Oz, eu tinha o Mano Brown como um líder, como um exemplo. Muitas redações na minha escola foi baseada no rap, né, o Face da Morte também, o Aliado G, na época o Gog também muita rima que ele falava eu copiava na escola, discutia através deles na redação. Então eu já tinha essa relação. Voltando a falar do trabalho ele foi dividido em 4 partes, o Mano Brown ficou por último, né, mas de fato quando eu pesquisei ele, comecei a pesquisar a história do Racionais, a vivencia periférica, posso dizer que eu me envolvi de vez, assim né. E o que aconteceu? Eu tava adaptando uma realidade que eu não conheço, né, não conhecia, não conheço São Paulo, muitos menos a periferia de São Paulo, mas através do Racionais tentei entender aquele processo. Foi aonde alguns historiadores chegaram perto de mim e falaram: “Olha, você devia fazer uma pesquisa em Foz, cara. Todo mundo sabe da contradição que é a cidade, né, uma cidade turística, mas todo mundo sabe da violência, do contrabando, do tráfico, de todas aquelas questões da periferia”. Foi quando eu conheci um historiador que ele fez um trabalho muito interessante na região do Porto Meira que foi onde ele se criou, o Emílio Gonzáles, trabalhou com a questão da favela da Morenitas que ele é de lá, ele pesquisou áreas de ocupações, então eu fui buscando perceber aquilo. Então por acaso na época eu namorava uma menina que também fazia história e ela se interessou em também pesquisar Foz. Eu, no caso, tava preso ainda nessa pesquisa antiga de 4 autores e tal. Conheci a Arinha, conheci o Paulo e levei ela pra pesquisar na Casa do Teatro, então foi lá que eu conheci o Fanzine, na verdade. Eu me lembro até hoje, o Paulo que me passou o primeiro Fanzine que eu tive contato e eu fiquei chocado, assim. Principalmente com aquelas imagens, o Fanzine acho que é o 32 tem as imagens que eu até uso no final do trabalho, que é dos moradores do Cidade Nova, um ensaio organizado pelo Lizal e pelo Elias, onde mostra justamente o contrário do que a mídia mostra, né. A idéia da periferia como um local onde as pessoas vivem e não se matam. Então ali, eu como historiador já no segundo ano já soube entender que aquilo era uma fonte histórica e que aquilo era capaz de narrar e de trazer um pouco dessa experiência periférica, né, e foi aí que eu busquei entender a experiência periférica. Aí foi todo aquele processo entrei em contato com o Lizal, o primeiro encontro foi com ele e com o Samuel. O Samuel foi um cara que também assim, ele com 13 anos eu nunca vou esquecer das palavras dele, já me chamou bastante atenção suas narrativas, ele me contou bastante coisa do cotidiano dele, do cotidiano do bairro e de outros lugares que ele passou, então eu entrei de vez e me vi envolvido com aquilo desde o começo, né, e só tenho a agradecer o aprendizado. Essa questão do porque escolher um trabalho, eu acredito que quando você ta na área de humanas você vai escolher algo que te aflige, né, algo que te incomoda.

De fato a desigualdade social é uma coisa que é visível na cidade, não é uma coisa mascarada, não é uma coisa escondida e a gente percebe, e aquilo me incomodava né. Então eu acho que quando a gente historiador, antropólogo, sociólogo, a gente vai fazer um trabalho a nossa escolha é por alguma questão mal resolvida com a gente mesmo, entendeu. O cara não vai escolher trabalhar por exemplo sobre os partidos de esquerda se ele não tiver uma dúvida, se não tiver alguma coisa ali que lhe aflige. Se aquilo ali tiver bem resolvido pra ele, ele não vai procurar uma resposta, entendeu. Então no caso, o rap de Foz pra mim eu queria conhecer mais, a vivencia periférica eu queria saber mais. E foi isso, foi o que eu busquei, de certa forma era um caso, vamos dizer, mal resolvido meu com a cidade, né, e que eu busquei através da história de está respondendo.

Z – Você fez um trabalho estudando as letras das músicas do Racionais e Bezerra da Silva. Você acha que a musicalidade ofusca a letra da música? Podia explicar um pouco esse outro trabalho que você fez?

Danilo – Então, isso aí foi uma oficina organizada por mim e pelo Emílio, aonde a gente pensou justamente isso, né. O que agente quis mostrar? Muita gente acha que a periferia só tem o rap, só tem o Hip-Hop e não tem, né, ela tem o samba, ela tem relações com diversas religiões, ela tem diversas formas de expressões, né. E muitas vezes essa forma de expressão casa com a experiência periférica, e não existe só uma experiência periférica, né, é uma multiplicidade da vivência. Então o que aconteceu? A proposta foi justamente essa, pegar o Bezerra que fala lá da realidade dele do Rio e como o gênero musical é um samba, é uma música alegre... pra mim o Bezerra é extraordinário, a música dele narra assim a experiência periférica, narra a malandragem, narra a vivência, narra aquela relação do cagueta na quebrada, narra diversas relações, a pobreza inclusive, né, e muitas vezes até de forma irônica. Diferente do Rap. Só que o que acontece?

Quando a gente vai trabalhar com o rap, o rap já é tido como um som pesado, então você vai ouvir um rap você já fica: “ah, vou escutar uma crítica, eu vou escutar algo questionador, algo tal...”. E muitas vezes você vai ouvir um samba e você não vai perceber isso, né, mas um samba comprometido, um samba de raiz ele tem esse traço também. E a música do Bezerra se você for perceber ela vai datar essas questões cotidianas da periferia, do local. Até a forma que ele trata a periferia, ele é um cara que pautou também muitas vezes na letra dele a legalização da maconha, então são postas questões políticas ali na música. Só que o que acontece? O samba ele é um som de certa forma, vamos dizer assim, um som alegre. Então eu acho que muitas vezes as pessoas vão por um samba, um pagode e vão dançar, né, vai rebolar, enfim, vai curtir, mas não vai parar pra prestar atenção na letra. E o rap de certa forma acho que não é um som muito a se curtir, né, é um som que já tem mais esse cunho político. Um exemplo também que eu posso ta dando dessa experiência é até o axé. O axé ele é uma música alegre, uma música de carnaval. A gente não precisa ta explicando aqui o significado do carnaval, até pro país, o sentido político, a nostalgia que ele causa na gente, né. Tem uma música do Netinho, aquele Netinho baiano, sabe? É engraçado que ela fala sobre o soterramento de um barraco numa área periférica de Salvador, só que ela é uma música alegre, a galera ta pulando ali, o cara ta cantando desgraça mas a galera ta dançando, ta curtindo, ta ligado? Só que é o gênero é alegre e tudo vira festa a maioria nem reflete na letra que ta ouvindo. Então quando a gente vai trabalhar com música tem uma série de implicações que a gente deve perceber. E um pouco do objetivo dessa oficina foi essa, né, foi mostrar que o Bezerra com o samba muitas vezes falava uma coisa que era muito mais violenta, muito mais assim vamos dizer, assustador pra uma sociedade conservadora que o Racionais. Só que o Racionais pela fama, pela aquela visão política do Hip-Hop, pela aquela coisa até mal interpretada que é jogada pela mídia da direita, né, da relação com o tráfico, da bandidagem, então aquilo causa uma outra impressão. Então de certa forma a gente discutiu com a turma, deu umas 60 pessoas nessa oficina, foi uma experiência maravilhosa e a galera ficou chocada.

E o Emílio, ele é um cara muito esperto com essas questões musicais, numa outra oportunidade ele com essa professora que me orientou eles organizaram uma oficina nesse mesmo sentido, né; eles organizaram o Emílio apresentando o Gabriel Pensador e a Geni apresentando uma música do Racionais. Eu acho que ela apresentou, eu não lembro agora pra dizer a música que eles apresentaram do Racionais pra comparar com a do Gabriel, a que eles apresentaram do Gabriel foi o Cachimbo da Paz. E como que o Gabriel ele é visto assim: “ah, o cara é cabeça”, isso assim pela classe média, né, acredito que boa parte da galera da periferia envolvida com o Hip-Hop não o suporta devido a outras relações, até sua vinculação nos programas banais como Faustão, Gugu, ultimamente ele fez até um DVD com a Xuxa, né, então é umas questões meio chatas. Mas a gente também não pode negar que ele já produziu músicas boas, músicas que também faz a gente pensar em algumas questões da visão dele que não é tão diferente do que a maioria dos meus amigos da vila A pensam.. Mas naquela ocasião a oficina teve um sentido de provocação, o sentido de trabalhar com música foi esse. O Cachimbo da Paz de certa forma fazia uma apologia ao uso da maconha e a música do Racionais eu não lembro qual, mas falava o contrário: “ó mano, não entra nisso aí, ta ligado, vai jogar sua vida num cachimbo...”.

Z – Talvez seja a música Capítulo 4, Versículo Três: “Ontem a noite eu vi na beira do asfalto / tragando a morte, soprando a vida pro alto”.

Danilo – É capaz. Eu sei que foi uma música do Sobrevivendo no Inferno. Talvez pode ter sido até a Mágico do Oz, também. Então de certa forma isso mostrou essa contradição. Muitas vezes a gente acha que o gênero, ele ta pautando aquilo, mas a gente sabe que dentro do Rap, Hip-Hop também tem gente falando de carro, de mulher, de vagabunda, de Uísque, de tênis Nike. E é rap. Não vou falar que é rap no sentido de ser rap, de fazer rap, o que a gente acredita, o que a gente quer pelo menos pra cidade de Foz, né, que é um som contestador, um som que nos faz refletir, um som de consciência e de enfrentamento. Mas, há o Cabal, há o D2 que de certa forma se colocam como rappers e que são vistos pela mídia: “ah, os bonzinhos, os bonitinhos” não falam Gírias, são mais educadinhos, e por trás eles estão fazendo uma série de apologia, uma série de apoio a coisas banais dando um grande incentivo ao consumo. Se você pegar um som do Gog, olha eu chego até a dizer que nem na MPB dos anos 60 teve um som tão político igual do Gog. Ele trabalha com as questões sociais e tem uma leitura marxista do processo histórico, sabe. O Gog é totalmente de Esquerda envolvido com o MST e com uma grande atuação em movimentos sociais. E o pessoal “acadêmico” fica naquela: “ah, os caras esquerdistas são aqueles que combateram a ditadura e tal”. O som de vanguarda pra eles ficou lá tras, hoje tem muito Rap que tem essa leitura só que o pessoal da acadêmica se quer vai conhecer, ou vai buscar conhecer, vão se passar várias décadas e vão continuar abraçando o Chico Buarque e outros como os revolucionários. Realmente foram enfrentadores combateram aquele regime, e hoje quem combate a burguesia, a opressão policial? Quem ta batendo de frente em muitas questões é o Rap, mas esse ainda não serve pra Universidade.
Então a gente tem que buscar a música e tentar entender quem que ta fazendo, que período foi feito, ao que esse cara é relacionado. Tudo tem que ter isso, entendeu isso é uma pesquisa histórica Então a música ela tem vários significados, o que foi Revolucionário um dia, hoje pode ser conservador.

Z – Primeiro você estudou o Movimento Hip-Hop em livros, Sites, ouvindo as músicas, mas sem nenhum contato direto com quem pratica essa cultura. Quando você começou a conhecer os manos pessoalmente quais foram os pré-conceitos quebrados?

Danilo – Essa pergunta aí é muito interessante. Primeiro porque eu acho que de certa forma, uma coisa que eu discordo muito dos trabalhos acadêmicos e até daqueles trabalhos do livro lá do Big Richard como outros que escrevem, muitos jornalistas escrevem sobre o Hip-Hop. Por quê? Porque eles mostram o Hip-Hop como a voz da periferia. Isso é uma coisa pra gente se pensar. A periferia não tem uma voz única, são várias vozes, né, e muitas vezes é colocado como se o Hip-Hop sustentasse toda a periferia, isso não é verdade. Outra coisa que me incomoda é de pensar que quando se fala em Hip-Hop se fala num movimento assim: “todo mundo vai lá e canta, não tem divergência, não tem disputa...”.

O meu primeiro choque foi quando eu conheci o movimento em Foz foi que quebrou essa visão, de certa forma romântica do movimento, né. O Hip-Hop é um movimento e todo o movimento envolve ideologia, envolve disputa, cara, envolve contradições, envolve política, né. Essa disputa de: “ah, eu toco em tal lugar. Eu não toco. Eu vou pra tal lugar. Eu não vou. Eu escuto tal som. Eu não escuto...”, são questões sociais, são questões ideológicas e todo movimento tem isso. E o contato com vocês me ajudou a enxergar isso, né. Vamos pensar assim, o Hip-Hop em Foz assim como o Hip-Hop nacional ele é múltiplo. Há o gênero gospel, há o gênero gangsta, há o bate cabeça entre outros, né. Um Mc que eu entrevistei uma vez ele me falou uma coisa interessante, ele me falou: “irmão, o rap pra mim é pra passar princípios bíblicos, é pra passar o que eu acredito, é o valor existencial de Deus e tal”. O outro já falou: “não mano, o rap pra mim é denúncia, ta ligado, eu sofro aqui, a polícia me maltrata, eu quero acabar com isso eu quero combater isso”. O outro ele quer cantar o que? A poesia. O outro quer cantar a guerra. Então isso é o que? Isso são as vozes, não é a voz da periferia, são as vozes. Aí que ta a riqueza, aí que ta a multiplicidade. E o Hip-Hop hoje ele é um movimento que ta em alta, a elite pode querer esconder isso mas o Hip-Hop hoje ele ta em alta, só que isso só faz com que cresça a responsabilidade.

Hoje ele é uma coisa que ta em crescente ascensão. Então o que acontece? Já ta começando de certa forma existir uma higienização, né. Um certo Mano Brown pra aparecer na Globo – não que ele queira aparecer – mas se ele aparecer ia ser ruim pros cara porque ele defende a posição contrária. Ele ainda fala como “favelado” Um Gog ia defender a posição contrária e assim como outros. Agora já o Cabal o D2 defende a posição favorável. Então eles são colocados como representantes dessa cultura . É aquilo que o Ferréz fala naquele vídeo 100% favela: “eles representam o rap higienizado”. E é isso que vai começar a ter porque a galera vai começar a falar: “ô, porque que o rap contesta tanto? Vamos dançar mais. Vamos falar mais das minas, vamos falar mais de balada...”. Eu acho até interessante que de certa forma se fale, mas que não se banalize, que não perca esse caráter, né. Esse caráter denunciativo, esse caráter político inclusive, esse caráter de posição. Esse movimento tem uma grande capacidade do envolvimento de jovens e agente jovem tem diversas angústias, diversas coisas que nos afligem. E não só esse movimento, como também outros movimentos são capazes de uma atuação e uma transformação coletiva. Então a gente tem que canalizar essas forças e usar essas fontes, cara, pra pensar a cidade, pra pensar o Brasil e pra pensar o mundo, né. Então eu acho que é um pouco isso e o meu contato com vocês mostrou primeiramente isso, que não existe o rap de Foz, que existe os diversos rap de Foz. No mesmo grupo há diversas posições, né, um canta uma coisa, o outro já canta a parte dele que de certa forma difere. Então aí que ta. A gente percebe o que? Percebe que o movimento é heterogêneo. Não existe a voz da periferia, existe as diversas vozes.

Z – Aí a gente caiu numa questão interessante. Hoje há uma grande discussão sobre o Funk Carioca ser ou não ser Hip-Hop. Você vê alguma compatibilidade entre essas duas culturas?

Danilo – Pra mim é difícil falar um pouco do funk do Rio, eu estive lá semana passada, de certa forma, conheci uma grande pesquisadora de lá que trabalha com a APA Funk; ela trabalha com diversas periferias, com a Cidade de Deus, com o Morro do estado, Rocinha e Acari. E ela me contou algo assim que a gente de certa forma, a gente hoje se fala em funk e logo se tem na mente, parece, aquela coisa da Tati Quebra Barraco; aquela coisa baixa mesmo, vulgar, né. Mas ela me contou que lá existe um movimento, inclusive ela apontou aquele Mc Leonardo que escreve pra Caros Amigos ele é do funk, ele é um cara totalmente politizado, ta entendendo. Então ela me disse que tem um movimento hoje no movimento funk do Rio que tenta resgatar aquela origem do funk de salão, cara. Então de certa forma a gente tem que pensar que esse funk de salão, esse funk antigo, o Hip-Hop deve muito a esse movimento e seria bom se ele voltasse, né. Acho que o funk representa a periferia, é mais uma voz, representa uma outra posição. Acho que em algumas cidades já existe essa fusão de funk e Hip-Hop e essa questão da cidade conta muito, tipo no Rio eles chamam o rap de funk, tipo “Rap das armas” né, então tem essa diferença. O rap que é o rap pra nós aqui no Sul pra eles é o Hip-Hop, eles chamam de Hip-Hop. E o Hip-Hop pra mim é pelo menos quando se junta os 4 elementos, é uma coisa mais coletiva, né. Então é até um difícil diálogo, cara, você vê, é difícil pra nós estabelecer o nome do negócio, imagina sentar e discutir, estabelecer as posições políticas e ideológica. Mas uma coisa assim não sou conhecedor disso, mas acho que assim como o Rap o funk teve diversas posições que conflitam como movimento, ele tem diversas funções, né. Existe o funk que divulga as facções – que é aquele chamado Proibidão -, existe o Funk que é o do M.r Catra lá que fala muito de puteiro, de festa e tal, mas existe ainda o funk até do Rap das Armas, que data questões do cotidiano periférico, da invasão do Bope. Tem aqueles Funks das antigas tipo aquele Rap do Silva, aquele próprio som lá Eu só Quero é ser Feliz, né cara.

De certa forma eu acho que essas músicas trouxeram uma contribuição pro rap e pra periferia como um todo. Agora eu seria injusto se eu dissesse que o rap deve ter esse ou aquele caminho, cara, até porque eu sou, vamos dizer assim, historiador, pesquisador do Hip-Hop, eu não sou ativista do Hip-Hop. Eu acho que essa discussão, essa posição se deve aos ativistas, né, aos que batalham mesmo, aos que vivem isso. Eu de certa forma tento reproduzir a vivência, a experiência de vocês, mas eu não to morando hoje na favela e não to cantando rap. Eu to convivendo com vocês, compartilhando esse espaço, me sociabilizando com a periferia, mas não to vivendo isso. Então não é porque eu to na faculdade que eu devo falar pra vocês o que deve ser feito ou não. Eu acho que só de ta tendo esse debate é algo completamente importante, porque, igual eu falei no começo da entrevista, a música popular hoje, o Hip-Hop, o Funk, eles estão em ascensão. Querendo ou não o Brasil hoje ta crescendo na área de cinema, né, e o cinema ta valorizando isso, ta valorizando o rap, ta valorizando o funk, ta valorizando a violência, a periferia, entendeu. As séries da Globo direto ta pautando isso, teve a Antonia, agora ta tendo aquele Ó Pai Ó, né, que data questões periféricas, mas da forma deles, né. A forma que eles querem que as pessoas pensem da periferia.

E esses movimentos é uma forma de muitas vezes ultrapassar isso, você entende, ou de afirmar o preconceito ou de acabar. Eu acredito que de certa forma alguém tem a capacidade de inverter a posição; até de fazer com que os outros vistam a carapuça. Porque eu quantas vezes levei rap pra professora escutar e pras outras pessoas, né, os chamados “intelectuais, doutores, mestres” e eles até falavam: “nossa cara!!! O cara da favela escreveu isso?!”. Aí vem aquela questão: Porque vocês não podem escrever assim, né, porque vocês tem que esperar alguém que estuda escrever? Então a gente tem que entender esse processo. E da mesma forma eu acho que também o cara que quer cantar sobre bunda, mulher e putaria, é o que ele pensa. Talvez é o que valoriza um pouco mais na vida, né. E o ser humano é isso, cara, o ser humano é diversas experiências, diversas cabeças.

Eu acho que tudo tem espaço pro debate. Parece que no Rio, a cultura do Funk, diferente do Hip-Hop de Foz, é uma cultura que eles conseguem se sustentar dela. A indústria fonográfica tem um grande poder sobre esse gênero e alguns desses funkeros acabam vendendo discos fazendo shows pelo País, tocam bailes e dessa forma muitas vezes acabam perdendo um contexto mais crítico. Quem vai em festa quer pular, curtir. Um colega do Rio, pesquisador dessas regiões, ele citou uma funkera que tem bastante letras críticas e ela não gosta muito de cantar esses funk que ela toca nas festas, mas ela precisa sobreviver, se ela for tocar em festa ela tem que canta o que a galera quer curtir, deve ser a mesma relação de Dj de balada que as vezes toca som que não curti, mas toca pra fazer a festa entendeu. Tem essa lado da profissão se o Hip-Hop virasse profissão em Foz ele mudaria o estilo pra ser mais tocado na ONO e nas baladas, ou se permaneceria do seu modo? Daí eu acho que iria variar alguns iam mudar outros não, acredito eu que a grande maioria daqui desse movimento não mudaria...

Z – O que você viu lá no Rio de Janeiro que te lembrou Foz do Iguaçu?

Danilo – Cara, deixa eu pensar... na verdade eu não conheci praticamente nada do Rio devido a sua dimensão, mas achei o Rio é muito diferente de Foz. Pra começar, uma coisa que primeiramente mais me chamou atenção na cidade é a quantidade de grafite, cara, a cidade lá é inteira pintada. Seja no centro, seja no subúrbio, a quantidade de manifestos assim escritos nos muros então isso eu achei legal assim parece que a juventude de lá ta se posicionando, eu particularmente vejo o grafite como uma posição. Mas de fato eu acho que a pobreza no Rio ela pareceu pra mim mais clara, entendeu. Aqui as periferias são o que na sua maioria, baixadas né, e lá são morros. Então você chega, você olha, o negócio tá no alto, a favela ta no alto, é muito mais visível, entendeu. Aqui em Foz não, aqui tem gente que vem pra Foz, anda ali no centro e não sabe que a 50 metros dali tem a Favela da Marinha, tem a Favela do Monsenhor, né, é muito mais escondido, muito mais maquiado. Há algumas aqui que não tem como esconder, né, quem vai estudar na Uniamérica ou na UNIOESTE com certeza passa pelo Cidade Nova. Essa quebrada aqui estampa um pouco da realidade. Eu passeei domingo lá no centro e é uma coisa muito chocante, a quantidade de mendigo que tem no Rio cara, é um absurdo assim, é triste, você olha debaixo de um viaduto tem uma colônia, 30, 40, 50 mendigo assim, com cobertor, né. E é muita contradição assim, porque lá você vê aquelas obras faraônicas assim.

Eu achei muito forte uma cena que eu vi perto da Lapa tem o prédio da justiça, tipo o Fórum, né, e era um prédio imponente cara, com aqueles vidro azul assim que brilha; ele ocupa quase uma quadra e debaixo das marquises do prédio, centenas de mendigos, né, centenas de crianças ali cheirando cola, dormindo. Então ali você vive muito isso, a riqueza e a pobreza estão lado a lado de certa forma. Um pouco do Rio é expresso na música do B. Negão que ele diz: “O Rio é uma grande favela com uma cidade no meio”, as favelas são bem mais visíveis. Uma coisa assim no Rio que me chamou bastante atenção por onde eu passei é a questão até da pele, cara. Lá as pessoas são muito mais morenas pra negro, de certa forma o que eu vi lá, e aqui no Sul não, aqui no Sul a gente vê bastante gente branca. Talvez alguém depois vai ler a entrevista e vai falar: “O cara não andou no Rio, ficou em tal lugar”. Eu to falando da parte que eu andei eu realmente não vi, pouca gente branca, eu vi moreno pra cima assim. E de certa forma andei bastante de ônibus coletivo lá e dentro do próprio ônibus coletivo você percebe aí a dificuldade das pessoas, cara. Aquele olhar cansado, aquele olhar de quem trabalhou, isso no domingo, ta ligado, pessoa suada, né, o ritmo lá é uma metrópole, o ritmo é outro, acelerado cara. Agora, uma questão que um professor de lá me chamou muita atenção, foi que eu fiz um comentário: “ah, em tal lugar lá do Rio os meninos lá estão com armas mais imponentes, né, do que alguns lugares de Foz que eu vi assim”. Aí ele me chamou a atenção e falou: “Danilo a gente não tem que ta aqui medindo se tal arma é maior ou se um fuzil chama mais atenção que uma pistola, mas só de a gente ir nesses lugares e crianças tiverem armadas a gente tem que se preocupar. Se eles tiverem com facas a gente tem que ta preocupado. Se eles tiverem com um soco inglês a gente tem que ta preocupado. Se eles tiverem com uma arma de brinquedo não é bom. Então a gente não pode fazer juízo da arma, entendeu”. Então dessa forma também a gente não pode fazer juízo de Rio e Foz. “Ah, uma favela no Rio tem 150 mil habitantes, 300 mil”. E daí, Foz tem uma que tem 1000, 10 famílias, mas quando tiver 5 famílias numa ocupação passando fome a gente tem que ta preocupado. Então a gente não pode entrar nesses valores comparativos, né, tal lugar é melhor ou pior pelo número, pelas coisas, pela visualidade.

A pobreza ta em tudo, cara, entendeu. Se você for em Rondon, é uma cidade muito complexa, todo mundo que passa, geralmente passa ali pra ir pro Mato Grosso e fala: “Nossa que cidade bonita, tudo limpo e tal”, e lá tem favela cara, tem bastante pobreza. Essa coisa de germanização lá é uma maquiagem. Você desce ali no Santo Amaro, vai descer em outros lugares você vê que lá ninguém é branco e ninguém fala aquele sotaque alemão, né. Então justamente um pouco do meu trabalho é isso, eu mostrei ou tentei buscar as muitas faces de Foz do Iguaçu, as suas várias formas, né cara. E de certa forma tem diversos pesquisadores que fazem trabalhos parecidos, né, porque nenhum trabalho é igual o outro, porque quando a gente se fala em cidade ou periferia nem a mesma de Foz vai ser igual, uma pessoa não é igual a outra, um lugar não é igual ao outro, cada um tem a sua especificidade. Quando se trabalha com cidade se trabalha com questões diferentes, a pobreza está presente acredito que em todas, a gente vive num país de terceiro mundo, um país – vamos falar a verdade – com uma grande desigualdade social, uma grande taxa de desemprego e a realidade é essa. Seja no sul ou no norte eu acredito que a pobreza, a fome, o desemprego e todas essas mazelas estão nos quatro cantos do Brasil, no interior e na metrópole.

Z – O trabalho em si é sobre a visão do Movimento Hip-Hop a respeito da cidade? Você poderia explicar melhor sobre o que reflete o trabalho?

Danilo – Eu acho que o que explica bastante essa posição do trabalho é o capítulo 2, onde ele ta intitulado Hip-Hop Expressões e Narrativas da Cidade. De certa forma eu to assumindo que o Hip-Hop é uma possibilidade de expressão e narrativa dos moradores. Mas eu não trabalhei só com pessoas do Hip-Hop, trabalhei também com pessoas que são de certa forma de mais idade, com pessoas que não estão ligadas com o movimento Hip-Hop e que também datam a sua experiência. De certa forma um pouco desse trabalho é isso o Hip-Hop quanto um movimento juvenil ele expressa como que a juventude periférica , vamos dizer assim, pobre – a pobreza quando eu me refiro é a pobreza econômica – porque aqui tem muita riqueza em outro sentido, muitos valores eu aprendi aqui, muito mais do que na universidade, de fato.

O Hip-Hop é um movimento que ele narra, que ele conta, que ele rima. Porque que ta cantando aquilo? Porque isso tem a ver com a sua vida, quando não é com sua vida é do seu vizinho, pai, irmão, com que seu amigo vive, né. Então busca essa possibilidade de entender a experiência periférica. E um pouco disso é percebido na música, né. Eu acho que aqui em Foz tem grandes cronistas assim, sinceramente. Acho que o Fanzine ele coloca o movimento em Foz com grande destaque, porque quando você canta um rap você tem ali certos segmentos; você tem um tempo, você tem uma batida e você vai ter que ta rimando. Agora quando você pega uma caneta e um papel pra escrever você pode descarregar ali a vontade, né, você não ta rimando. Então eu coloco um pouco isso no meu trabalho, é uma coisa que eu qualifico, né. E eu diferencio um pouco de outros movimentos do Brasil, que o Hip-Hop de Foz, o Cartel do Rap, que é a organização a qual eu trabalhei tem 5 elementos, né, o Fanzine é o 5° elemento. E o Fanzine é o que, ele é uma coisa que já ultrapassou a barreira do Hip-Hop eu acredito, tem alunos de faculdade escrevendo, tem outros moradores que não são desse movimento, tem outros pensadores, né. E essa é a capacidade do Hip-Hop.

O Hip-Hop tem a capacidade de não ficar só nisso, mas de se politizar, de se criar um material alternativo de se divulgar outras idéias. E eu só tenho a agradecer o aprendizado que essa pesquisa me trouxe. Eu quero deixar claro que não fui eu historiador que vim aqui entender a cidade, foi vocês que me mostraram a cidade e através disso eu fui entender um pouco até da nossa vida porque eu cresci aqui também. O meu pai trabalha em Furnas, né, eu cresci ali, boa parte da minha vida eu vivi na Vila A. Todo mundo sabe o que a Vila A representa pra cidade, né, é um bairro de ascensão, é um bairro que a Itaipu investe, é um bairro que tem comércio, é um bairro que tem praticamente tudo hoje ali, tem banco, é um novo centro de certa forma administrativo. Então eu vim aqui e pude conhecer o lado dos trabalhadores braçais, da classe baixa, o lado que a Itaipu e os órgãos públicos abandonam e só lembram em épocas eleitorais.


Z – Uma das teclas que você bate em seu trabalho é sobre a construção da Itaipu e sobre a formação de favelas decorrentes desse processo. Você pesquisou no trabalho de mestrado do Edson Clemente e entrevistou alguns moradores mais antigos. Na sua opinião, a Itaipu tem alguma dívida com as favelas de Foz?

Danilo – Então, o trabalho do Edson ele tem uma perspectiva acho que um pouco diferente da minha. Porque ele trabalha com planos diretores, ou seja, a questão da urbanização da cidade, de fato ele não chega a entrevistar e de certa forma moradores dessas áreas, não é o interesse dele de trabalhar com a periferia. A gente tem um problema que parece que não tem como falar de Foz sem falar da Itaipu, né. E isso é um problema que de certa forma é uma contradição até histórica. E de certa forma a gente ta dando poder a ela, né, até quando a gente quer contrariar ela a gente dá poder, vai falar de Foz tem que falar da Itaipu. Até pra ser contra, ta entendendo, a gente acaba afirmando ou de certa forma posicionando a imposição que ela tem sobre a cidade. Uma coisa eu sou contra, cara, eu não parto daquela visão de que Foz só existe por causa dela. A gente ta numa área de fronteira e alguns trabalhos feitos por outros profissionais data que de fato o inchaço, a pobreza e tal veio por causa dela; eu acho que de fato se acentuou com ela. Mas você pega ali a região do Porto Meira, é uma região que veio muito imigrante do Paraguai, né, fugindo dos conflitos, alguns até de regimes da ditadura do Stroessner e outras questões. Então não é todo mundo que é pobre que veio pra trabalhar na Itaipu. Se a gente falar que todo mundo que é pobre veio pra trabalhar na Itaipu a gente vai ta às vezes negando a história da sua mãe que veio do Paraguai, do outro cara lá que veio da Argentina e por aí a fora. Então a gente não pode cair nesse equívoco. Mas a gente não pode negar cara, que a Itaipu, ela foi feita no período da ditadura militar, né, num período que o Brasil tinha que se afirmar que o Estado era forte. E porque que a Itaipu foi feita aqui? Porque aqui é uma área de fronteira e toda área de fronteira é uma área de risco pro Estado. Em caso de guerra, em caso de disputa econômica, em caso de busca de território, de expansionismo, aqui é alvo, a gente ta no alvo, cara. A gente tem base americana aqui perto da gente, isso não é à toa.

A Itaipu ela tem a sua culpa social. Não a sua culpa, a sua “enorme” culpa. Vamos comparar então a Vila A, a Vila B e a Vila C. a Vila C foi o que? Foi aquele bairro que veio os barrageiros de outros estados construir e tal. E o que ela fez depois com esse pessoal? Ela jogou, cara, ela jogou fora, desapropriou. A Vila A ta formada por aqueles o quê? A gente tem que entender um pouco isso como o processo da divisão do trabalho, né, divisão do trabalho capitalista. AVila A é formada por aqueles que de certa forma tiveram diploma, que são trabalhadores valorizado pelo diploma , que tem contrato, né. Então eles foram colocados ali na Vila A. Então vamos comparar um pouco a Vila A com a Vila C, cara. A Vila A ela abriga um grande centro de recreação que é o Gramadão, não é à toa. Porque ela tem que ta mostrando, ela tem que ter criado isso pros funcionários, ta entendo, pros funcionários trabalhar bem, pra ir trabalhar tranqüilo. O hospital, talvez o maior da cidade, ta concentrado ali. Então através da Vila A agente entende um pouco do poder da Itaipu. E o que é a Vila B? A Vila B é um condomínio fechado, né cara. É onde ta o setor executivo ali o grande escalão. Então vamos pensar um pouco, a Itaipu ela criou três vilas, né, é só a gente tentar entender a diferença dessas três vilas. Uma burguesa, uma classe média- classe média alta e outra mais suburbana, mais periférica, mais afastada. Então ela é culpada por isso, ela separou, se ta entendendo. A Itaipu está localizada na zona norte. E onde tá a maior concentração da pobreza em Foz? Na zona norte. Então até pelo mapa a gente percebe um pouco dessa contradição histórica. O mesmo espaço que abriga a maior hidrelétrica do mundo é o espaço que está sendo dividido com os grandes bairros periféricos. Agora antes disso quantos índios ela não tirou, cara? Quantas famílias não foram desabrigadas. Quantas pessoas não perderam terra e tão esperando até hoje indenização. E Guaíra então? Guaíra foi um lugar totalmente prejudicado, cara. Inundaram a sete quedas, teve gente que morreu. Quantas pessoas não morreram trabalhando na construção disso aí e até hoje com certeza não viram indenização.

Aí entra um pouco o debate histórico que diz, né cara, que toda a ação hegemônica, todo poderio grande, estatal traz uma reação anti-hegemônica. Então você sabe que o próprio MST hoje que é um dos maiores movimentos de trabalhadores do Brasil, ele foi criado em Cascavel, cara; ele foi criado, de certa forma já pertencia um pouco daquela esquerda da teoria da libertação, pastoral da terra e foi fundado principalmente pelos atingidos pela barragem. Então pra gente entender a Itaipu agente tem que entender todo esse processo, né, o processo de exclusão, o processo de resistência e o processo de periferização. Dizer que toda a pobreza que tem em Foz é culpa dela, não é, mas grande parte ela tem a sua incumbência. A gente não pode falar que é 100% mas vamos dar uns 85, uns 90% pra ela. Ou que seja 10% ela tem que arcar com o prejuízo que ela causou. E a gente tem que ta esperto, hoje ela ta vindo aí com esse processo da UNILA e não é estranho que ela vai ser construída na Vila C. Você acha que não vai ter aquele discurso: “Olha, a gente veio aqui pagar aquela dívida, e não sei o que...”. Depois de vinte, vinte e poucos anos, quantos caras desses que tinham que receber já não morreram, quantas famílias já não foram destruídas por causa disso aí. Pros caras vir agora com esse plano da UNILA pra dizer que eles vão dar emprego, dar isso, dar aquilo. Pra aquele bairro que foi excluído, Então é uma coisa complicada, cara, a gente tem que ta esperto, a Itaipu ela ta agindo, a Itaipu ela ta sucateando a UNIOESTE com o PTI, né. A gente sabe que o PTI é lindo, é maravilhoso, mas os outros cursos da UNIOESTE ta acabado, entendeu. Esse ano teve um encontro de iniciação científica de todo o Paraná, não foi na UNIOESTE, uma coisa que me incomodou muito que o encontro foi dentro da Itaipu, tinha negócio dela pra tudo quanto é lado, tinha sala bonita, tinha tudo. Porque não fazer na UNIOESTE? Mostrar que ali ta faltando carteira, que é uma universidade Publica que como muitas no Brasil está sucateada, esconder que ela é de frente pra uma favela, qual que é o sentido disso? É o sentido que parece que tudo que ela toca aqui brilha, né.

Quando se fala em Itaipu se fala em poder, se fala em dinheiro. Parece que tudo o que ela mexe se transforma. Então tem que ta entendendo hoje porque que ela valoriza tanto a engenharia, né. Lógico ela precisa de engenheiro, ela não ta precisando de pedagogo, ela não ta precisando de gente das letras, então ta sucateado, ela não vai ajudar esses cursos, esses não trazem mão de obra pra ela, a pesquisa da humanas não vão ser projetos progressistas e tecnológicos que ela precisa. Aí ela vem com esse discurso de que faz o social. Não faz porra nenhuma, né cara. (risos). Ela não ta nem aí, entendeu. E aí de repente ela cria formas de: “ah, vamos acabar com a pobreza, vamos criar trabalho voluntário, vamos criar administrações, vamos criar micro setores”. Aquele papo do cooperativismo barato, cara, que os cara já entram sem metade dos direitos que tinham, e dessa forma ela vai levando cara. Os próprios royalties que tem, aonde que ele investe na cidade? Dizem que o turismo gera dinheiro. Gera pra quem, cara? Você vê um gringo chegando num hotel ele já é direcionado, ele não vai comprar daquele camelô, ele não vai comprar do hippie que faz artesanato, ele vai direto pra uma loja chique, vai direto pro shopping, entendeu; a riqueza, o dinheiro ali gira na mão de poucos. E a cidade de fronteira e grande como Foz não pode só depender, desse turismo e da Itaipu. A gente precisa de Universidade realmente; é aquilo que tava se discutindo lá na Assembléia da Juventude, onde as pessoas que se formam tem que sair, cara, tem que não sei o que, porque não tem aonde trabalhar. Então é um processo complicado, cara, entender um pouco da Itaipu é entender, de certa forma parcialmente, não totalmente, um pouco da contradição da cidade. Ela deve muito pra cidade, ela fez diversas tragédias, diversas desgraças e ela devia pagar por isso. Mas, ao contrário não paga.

Z – O que mais te surpreendeu durante o desenvolvimento do seu trabalho?

Danilo – É difícil falar de uma coisa que me surpreendeu, assim, porque eu conheci pessoas excepcionais nesse trabalho, cara. Pessoas que justamente mostram como o mundo é injusto e desigual, né. Quantas pessoas daqui mereciam estar nas universidades; eu chego a grandiosidade de falar que mereciam estar no governo, cara, deviam estar na frente das decisões políticas, né; com a capacidade de organização, com a capacidade de discurso, com a capacidade de escrita, mas você vê tão aí, né, tão nadando contra a maré. Então uma coisa que me surpreende muito, cara, é as pessoas que vem desses lugares e não se rendem, não se entregam, quebram barreiras todos os dias. Tem pouco tempo pra se dedicar a uma causa e se dedicam, sabe, renunciam às vezes um domingo pra ta melhorando a vida de um irmão, de um vizinho, de uma comunidade em si, né cara. E o próprio espírito que se tem, na favela o espírito coletivo, né, tal fulano ta faltando um arroz: “eu só tenho um pouco, mas eu vou dividir com ele”. É uma coisa que você não vai ver na elite, na classe média, eu garanto que não, né, você entende.

Outra coisa que me chamou muita atenção é a coisa do guerreiro, né cara, a polícia vem, reprime, bate, mas não param de cantar, não param de denunciar. É uma vida de luta, onde só os fortes sobrevivem e tão sobrevivendo pra incomodar muita gente poderosa. Isso faz eu me cobrar muito, eu falo: “pô, os cara que tem metade do que eu tive fazem muito mais que eu, e hoje o que eu vou fazer”, né. Por isso que eu digo assim que esse trabalho era pra ser um trabalho de conclusão de curso, mas foi um trabalho que realmente mudou a minha vida, o sentido da minha vida. Hoje eu já sei resistir mais ao luxo, ao brilho, né, ao perfume bom, as coisas que brilham mais, que te fascinam mais, pra vir reconhecer outros valores. Outros valores que muitas vezes é aquela coisa capitalista de transformar tudo em mercadoria, né cara, nos corrompe. Na verdade eu conheci na periferia a verdadeira resistência e acredito ta vendo nela parcialmente um processo de revolução.

Z – Você pretende dar continuidade a esse trabalho?

Danilo – Eu to muito envolvido, cara, essa pesquisa me proporcionou grandes aprendizados igual eu falei anteriormente. Ela me deu a possibilidade – eu devo muito isso a vocês – me deu a possibilidade de conhecer o Rio, de conhecer outros pesquisadores, sabe. Ela tem me aberto portas na minha vida excepcionais. Hoje eu vou dar uma aula eu posso dizer de tais experiências que eu tive com esse trabalho de campo, né. E são coisas que eu vou carregar por minha vida inteira, então eu não penso em tão cedo largar essa pesquisa. Até onde vocês quiserem me ajudar e derem espaço eu to aí, caminhando lado a lado com vocês. E eu só tenho mais uma vez a agradecer. Se eu disser que é gratificante eu to até diminuindo o significado, porque são diversos significados.

Quantas vezes eu saí da periferia feliz, quantas vezes eu saí triste, quantas vezes eu saí revoltado. Todo dia é um sentido diferente que eu adquiro dessa experiência que faz eu refletir na vida, faz eu tentar buscar outras respostas. Eu devo muito a vocês. E eu acho que talvez, se não fosse essa pesquisa, se não fosse esse contato em Foz eu não sei se eu teria terminado o curso de história. Porque eu tava numa fase justamente assim: “pô cara, a gente estuda a revolução burguesa, a gente lê revolução russa, a gente lê um monte de coisa, revolução industrial, mas o que a gente faz, o que a gente pode fazer?”. Então a periferia, o Hip-Hop me abriu a possibilidade do que eu posso ta fazendo, de como eu posso ta fazendo, entendeu. Então eu aprendi muito com vocês a respeito disso, não a recuar cara, a ta batendo de frente. E de certa forma eu acho que quando se estuda história e só se fica na academia você reduz o significado. Eu acredito que os grandes historiadores têm um papel político na sociedade, tem um papel militante de fato, né, então isso eu to adquirindo através de vocês. Aonde eu levo esses Fanzines pra diversas pessoas, universidades, chama a atenção isso, né, porque é um rompimento de paradigma, né cara, a favela ta escrevendo.

Quando eu levei esses Fanzines pro Rio, um professor lá da Universidade Federal Fluminense, ele olhou pra mim e falou: “cara, daqui uns dias eu já vou ta levando isso aí pras periferias do Rio. O Fanzine mostra que a periferia não deve só cantar têm que começar a escrever também”. Ela disse que tem propósito de ir pro “Fórum social, unir as periferias...”, ta entendendo. Então é uma possibilidade que vocês tão me dando e eu acho que eu tenho que tentar retribuir um pouco isso a vocês.

Z – Quais os sons de Rap que você ta curtindo?

Danilo – Ultimamente, um cara que eu tenho gostado muito assim, um desses mais novos é o Criolo Doido, cara. O Criolo Doido ele me chama muita atenção, cara. Além da qualidade da rima dele, da batida, mas pelo que ele fala assim. Tem parte que ele é engraçado, tem música que ele canta que parece que ele até chora, né. E eu gosto um pouco disso, acho que o rapper, assim como o historiador, ele é o interlocutor né cara, ele tem que ta envolvido. Se for pra falar sem se envolver então não fala. Eu sou muito fã do Racionais, eu gostava muito do Sabotage. Eu acho muito legal o trabalho que o Rappi'n Hood faz, esse último trabalho que ele juntou Rap com o samba. Um som que eu não conhecia que eu comecei a ouvir mais esse ano é o Trilha Sonora do Gueto. O Cascão faz uma crítica à imprensa, o programa do Datena que ele debocha do cara. Eu acho uma forma muito interessante né cara. (risos). Ele zoa o bagulho mesmo e isso é muito legal. Até aquela música em que ele fala: “pô, você vive taxando os caras de drogado e tal e seu filho é craquero”, ele joga a contradição pro cara. Porque a marginalidade não ta na periferia, ela não tá num lugar só, ela ta em tudo mano. Hoje tem muito boy que rouba, tem boy que seqüestra, entendeu. Os caras viciados aí que afunda o nariz a maioria é rico, cara. É ator da Globo, é jogador de futebol. Quem tem dinheiro pra cheirar, mano? É burguês, cara. Então é até aquela questão né cara, o rap faz a gente pensar em muitas coisas como tem aquele samba das antiga que diz: “que a maldade muitas vezes não esta em quem segura o fuzil, tem gente de terno e gravata que ta matando o Brasil”, ta matando diversas vidas, diversas coisas.

Um som que eu gostava muito, mas ultimamente eu não gostei muito do cd foi o Face da Morte. Eles lançaram aquela música Bomba H, aquela música magnífica, até a própria Vingança que virou um hit na periferia. Mas agora o último cd eu não sei se é meu ouvido, eu não sei o que é, mas eu não tenho gostado muito não, na minha opinião eles regrediram. Um som interessante que eu acho é o da Família que eu to começando a escutar agora. Dos grupos de Foz eu tenho escutado muito o som do ADP, eu acho espetacular assim. Eu gosto muito daquela música Critério Humano, eu até citei no trabalho. Eu escuto muito aquela Vítima também, até porque ela retrata que a gente não quer ser a vítima, a gente quer ser guerreiro, a gente ta aqui transformando a nossa situação, a gente ta resistindo.

Um grupo que eu escutei muito, eu gosto muito é o 0.1, cara, eu acho um grupo espetacular. Eu gosto muito das rimas do Conexão PB. Eu acho de forma muito inteligente e sempre ta incluindo outras pessoas pra rimar, rima com o Elias, rima com o Fernando Nègre. O próprio Mandamentos é um rap mais pesado, eu não costumo escutar muito, mas a qualidade deles é muito boa acho legal também tem aquele menino bem novo que canta no grupo, uma forma de estar dando continuidade ao movimento. E um grupo assim que toda vez que eu vejo eles tocando eu acho que eles estão melhores é o Inimigos da Guerra. Os caras estão em constante evolução, tem que continuar assim que vão estourar também, aqui em Foz são vários sons já, não ouvi todos a molecada do Profecia também eu escutei, curti, e o som do Quinto Naipe legal também ter essa outra idéia no movimento o som Gospel que mostra a diversidade do Hip-Hop.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

NOSSA CULTURA É FEITA NA RUA!!!


Salve amigos e amigas. O dezembrão chegou e as cigarras já cantam seu canto fúnebre pelas quebradas. Os manos e minas do Fanzine do Cartel não acreditam em papai Noel. “Até rimou”. E o espírito natalino rima com consumismo, cinismo e outros ismos mais. Salve Sérgio Vaz. “Mesa farta / Mesa falta”. Pra muitos da favela o natalzão vai ta “osso”, literalmente.

“Toca o sino pequenino, sino de Belém
Ouça o ronco da barriga do favelado que não come ninguém”.

Mas a luta continua. A corrupção, o crime, o desrespeito, o desemprego, a repressão policial não tiram férias. O “bom velhinho” aparece na tela dirigindo carro do ano, falando no celular e tomando coca-cola. A desigualdade continua. Nessa edição trazemos um artigo do irmão de hospício Ferrez que faz a sua crítica sobre os políticos que fodem nosso brasilzão. Mas, nossa cultura continua, nas ruas, nas praças, nos pequenos palcos, nos colégios, nas esquinas, nas rádios, nos fones de ouvido e até nos livros.

Em Cascavel os manos do movimento de Foz foram representar a cidade no projeto FERA COM CIÊNCIA. E em Marechal Cândido Rondon o Movimento Hip-Hop iguaçuense é tema de TCC. Nada melhor pra terminar o ano.

Tim Tim, um brinde pra nóis!!!!!!!!!!!!

APOIARAM ESSA EDIÇÃO DO FANZINE:


QUADRINHOS - William Leonel Durda


VEM!!!!!! COM O A.D.P.

Até parece que foi ontem...

O ano era de 1999, o mês eu fico devendo. Mas ainda lembro do primeiro ensaio. O barraquinho de madeira na viela C, Jd. Paraná e os dois malucos Lizal e Nenê dando início ao projeto de montar um grupo de Rap. A base era sampleada e a primeira letra feita naquela mesma semana falava do bairro, dos manos, das minas, dos rolê e ainda dos problemas sociais. “O grupo vai se chamar Aliados da Periferia (ADP)” – disse euforicamente o truta Nenê. E fazendo jus ao nome vários aliados viriam se juntar ao grupo, formando uma família. Primeiro colou o Mano Delei e o Mano F, depois o Negro Jonne, dando outra cara ao grupo. A formação do grupo mudou muito durante esses anos todos e hoje conta com: Mano Máscara, Mano Cascão, Mano Fernando, Negro Jonne e Dj Evinho. Com músicas que já é hits na cena paranaense, como “Piras Conscientes, Labirinto sem saída, Critério Humano, Vítima”, o grupo vem abrindo caminho e se apresentando em diversas cidades como Campo Mourão, Cascavel, Santa Terezinha, Toledo e Marechal Cândido Rondon. E para comemorar os 9 anos de correria nada melhor que um CD na rua. No dia 13 de dezembro o ADP estará lançando seu primeiro CD de demonstração e fará um show histórico no Otroplano – Vila A - pra fechar com chave de ouro esse ano em que o Cartel do Rap passou por várias barreiras.

“Vítima é quem se acha vítima / transformo em arte a nossa situação crítica”. (ADP).

O BANHEIRO DA FUNDAÇÃO CULTURAL. (Por: Lizal)

Estava eu andando pelo centro quando veio aquela vontade de ir ao banheiro. Como em Foz do Iguaçu não temos banheiros públicos para atender a população em estado de emergência, pensei em entrar numa lanchonete, comprar alguma coisa e pedir para usar o banheiro. Eu estava próximo à Secretaria de Turismo e dali avistei logo a frente o prédio da Fundação Cultural, imponente, convidativo, todo pintado de branco. Caminhei rapidinho até lá. Na frente do prédio duas grandes árvores oferecem sua sombra aos carros e motos dos funcionários, estacionados na calçada de pedrinhas brancas e pretas – a lá Av. Brasil. Em seus galhos alguns pássaros cantam, voam e fazem seus ninhos. Oito banquinhos estão espalhados pela calçada, onde casais de namorados tiram um lazer e um senhor com o olhar cansado observa o movimento.

No hall de entrada um tapetinho azul com o logo da Fundação dá as boas vindas. Dois vasos com plantas decoram o local e no corrimão da escada enfeites indicam a proximidade do natal. O piso é quadriculado, preto e branco, e dá a impressão de estarmos em um tabuleiro de xadrez. O banheiro fica no subsolo, a um lance de escada, e uma plaquinha indica o feminino à esquerda e o masculino à direita. Antes de entrar no recinto tem ainda um bebedouro com água gelada pra quem quer matar a sede. O local é limpinho e possui dois sanitários a sua escolha. Há ainda em um canto um mijadouro para quem só quer fazer xixi. É um banheiro bem amplo e com papel higiênico à vontade. Enquanto você faz suas necessidades pode ainda exercitar sua leitura lendo as frases escritas na porta. “Lá fora você é machão, aqui dentro você caga”, diz uma delas. A descarga tem boa pressão e o vaso sanitário é confortável. Após o alívio, com as necessidades satisfeitas, você ainda pode lavar as mãos. Pode escolher entre as duas pias, branquinhas como a neve. Logo acima da pia tem um espelho. A única coisa que faltou foi uma toalha pra secar as mãos. Mas aí já é querer demais, a verba destinada à cultura é pequena.

Lizal Convida:
Quem quer conhecer o banheiro da Fundação Cultural faça uma visitinha, é grátis. Ele fica localizado na Rua Benjamin Constant – Centro - próximo a Igreja Matriz.

(Lizal é ativista do movimento Hip-Hop em Foz e é totalmente contra a elitização da cultura e a falta de apoio e respeito para com as culturas praticadas por moradores de periferia).

CONSCIÊNCIA NEGRA. ZUMBI VIVE!!!

O dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, é um dia para reflexão sobre a questão racial. Nesse dia, no ano de 1695, aconteceu o assassinato de Zumbi dos Palmares, mártir da luta pela libertação dos negros no Brasil. Esse ano o MONARFI (Movimento Negro e Antiracismo de Foz do Iguaçu), liderado pelo Seu Raimundo, promoveu no dia 23 de novembro, um domingo de muito sol, o evento do dia da Consciência Negra. Como é de praxe, a manifestação aconteceu no Laguinho – Porto Meira – e tomou toda a tarde. Entre as atrações rolou um reggae com a banda Raizen, Hip-Hop com CIA de Rua, Cartel do Break e Cartel do Rap, Dança Afro e muito mais. O evento contou a colaboração da Nação Hip-Hop Brasil, UJS e com o “APOIO” da Fundação Cultural.
No dia 27 de novembro a Associação dos Morados do Jd. Ipê realizou o Prêmio Zumbi dos Palmares. A premiação foi no Teatro Barracão e homenageou os cidadãos negros de Foz que se destacaram por seus trabalhos. A idéia da criação do prêmio foi do maratonista Robson Douglas e os homenageados ganharam estatuetas produzidas pelo artesão Francisco Insfrán Ruivo (conhecido como Chiquinho Charango). Segue lista dos homenageados:
Geraldo Martins, Elson Marques, Luciano Alves, Jakson Lima, Robson Douglas, Pedro Katana, Luana, Carlos Café, Edna Almeida, Pastor Manoel, Padre Edivaldo e professor Maikon.

Lelinha tem tetas pra todo mundo (Por Alexandre Palmar)

Difícil imaginar quantas boquinhas a cadela sustenta, mas pelo olhar complacente da Lelinha dá para imaginar que há uma vaguinha para todo mundo. Fácil deduzir que seu coração de mãe possui um tamanho acima do normal, sempre com espaço para mais um apaniguado, independentemente de raça, clero ou filiação partidária. Ela está na entressafra da produção de leite. Hoje, amamenta 14 filhotes; desses, seis têm laços sangüíneos. Outros oito cachorrinhos sem paradeiro estão ali, disputando uma teta, porque estabeleceram laços de amizade com a cachorra, um tanto benevolente. Estão todos lá, numa acolhedora casa, localizada na Rua Barão do Rio Branco.

Difícil saber de onde vem tanta força da Lelinha, uma senhora de cinco anos de idade. Cadela de rua, ela tem o costume de adotar os vira-latas de Foz do Iguaçu; aqueles sem pai nem mãe. Cria própria mesmo, só duas ninhadas. “Mas sempre foi boa mãe”, resume o fotógrafo Marcos Labanca, autor da imagem emblemática.

Demonstração de compaixão só vista do mundo animal....

(Alexandre Palmar é jornalista em Foz do Iguaçu e integra a equipe do MEGAFONE).

Fonte: www.megafone.inf.br

Natal vs Consumismo

O Natal ainda demora a chegar. No entanto, as pessoas já correm umas atrás das outras, apressadas, carregando sacos, caixas, plásticos. As luzes já são múltiplas na cor, no tamanho e na quantidade. Piscam sem parar nas lojas, nas ruas, nas varandas...
À noite, o entusiasmo pelos passeios a pé aumenta. Porque as ruas já não são as mesmas de antes. As pessoas olham-se com mais ternura, as crianças brincam com mais alegria, o som e a cor dominam os nossos sentidos... Ainda se sente o calor do Verão de São Martinho e já as lojas têm pinheiros made in China, enfeites, gambiarras, bolas...
Estamos em Outubro e já há festa nas lojas e nos grandes centros comerciais, quando o sol ainda chama para os últimos dias de praia. É urgente despachar a mercadoria e iludir aquele que compra. Dar a idéia de que os acautelados não vão andar na confusão das compras. Pura Ilusão. Quem cedo começa, tarde acaba. Arrastado pelos outros, pelo espírito da época e pelo 13º mês. Pois o comércio entrou na guerra do comprar e vender. E assim garantir que ninguém se esquece de gastar o subsídio de Natal.
E tudo isto num autêntico delírio que quase nos faz desejar passar à frente e "saltar" o 25 de Dezembro e o Fim de Ano. Com as compras, vão chegar os jantares e os almoços. Dos amigos, dos colegas de trabalho, da família mais afastada. Uns a seguir aos outros, sem tempo para a digestão. Nos festejos e nas compras o ritmo é sempre o mesmo. Faz-se porque sim, porque é tradição. O Natal é tempo de estar com os outros e de dar presentes. Por isso começa-se cedo a comprar para a festa. Em prevenção, enche-se o carrinho de compras, troca-se as bolas vermelhas pelas azuis. Compra-se, compra-se. A consciência, os sentimentos de culpa, as nossas faltas, as nossas ausências... tudo muito bem embrulhado numa linda caixa dourada, com um grande laçarote vermelho. Sinto saudades do tempo com outras medidas. Esse em que os dias eram compridos, o Natal era Dezembro e demorava a chegar. E, quando entrava no calendário, vinha cheio de pequenos acontecimentos. Sinto saudades dos brinquedos, do pinheiro, do presépio, do meu vestido novo, do cheirinho a tinta fresca na casa, da fruteira abarrotada na sala de jantar...
Nesses tempos não se vivia por antecipação, por cautela, por conta do que ainda não tinha acontecido. No São Martinho comia-se bacalhau, castanhas e vinho novo. Porque para o resto havia muito tempo. Dias atrás de dias e tudo a seu tempo. Mas isso são coisas de quando o mundo era apenas o mundo e não uma grande máquina de consumo.

Fonte:
cacharel-confidencias.blogspot.com

SOBRE POLÍTICOS E PORCOS (Por: Ferrez).

Vote bem ou vote mal, agente é obrigado a votar, e só isso já é uma puta sacanagem, sair da sua casa para "exercer a cidadania".
Mas vamos ao fato, passar nos buracos, nos péssimos asfaltos, pelos postos de saúde abandonados, pelas calçadas que obrigam o cadeirante a viver confinado em casa, pegar um ônibus destruído, com um motorista cansado e preocupado com o horário da próxima viagem, descer numa escola, muitas vezes paralela a um córrego cheio de lixo, ver dois policiais despreparados na porta, segurando suas armas, olhando pra população como inimigos, para depois entrar numa escola abandonada pela educação de qualidade, entrar numa sala amarela, chegar na urna e pagar o mico de pensar que está mudando algo nesse país. Políticos são vampiros que saem dos seus castelos de 4 em 4 anos.
Na época da campanha vale tudo, colar em festas na favela, partidas de futebol de várzea, quermesses, aniversários de líder comunitário, lançamento de livro, shows de rap, agora no dia-a-dia da quebrada, estamos sozinhos fazendo algumas mudanças (e num é que eu demorei mas acabei notando isso), que em época de eleição eles tentam achar agente, nós os escritores, rappers, pintores, poetas, tidos como os representantes do povo.
Isso é muito simples de explicar, nenhum deles tem mais contato com o povo, nenhum deles está mais próximo da massa, isso ficou pra gente, os mediadores de conflito.
É triste, ver uma evolução tão lenta, da ponte pra cá, você vê que é tudo a passo de formiguinha, que os meninos vão crescendo sem um caminho a seguir, a não ser reproduzir o mesmo caminho dos pais, uma vida tão limitada que não dá tempo de ser vivida de fato.
Domingo é dia de alimentar os porcos, de dar seus votos. Domingo é dia do mano perder o trampo, o bico que vinha fazendo segurando a bandeira no meio da esquina, dia de tirar o adesivo do carro, voltar pro anonimato, dia de tirar o banner da casa, de jogar o resto do panfleto no lixo, de tirar a camisa do candidato que o alimentou naqueles meses, domingo é dia de ver quem vai continuar roubando, ganhando por mais 4 anos, enquanto a periferia volta pra estaca zero.
Na verdade eles pegam muito boi, porque o certo era agente estimular o enforcamento de vários nas árvores em volta da Assembléia Legislativa, ou mesmo no viaduto próximo a Câmara dos vereadores.
E qual a saída? agente começar a entrar nisso e mostrar a cara? se candidatar? Nessa armadilha nunca caí, só que já acreditei e alguns que se diziam "nossos" mas eu aprendo com os erros rapidamente, e quem leu a "Revolução dos Bichos" sabe o que falo. Rapaz, tem vários que estão lá dizendo que são "povo", mas nenhum está com o terno cheio de poeira da periferia, nenhum está com a sola do pé vermelha da terra que agente vê na quebrada, nenhum deles volta pra abraçar agente no final da coroação, porque agente é povão.
E tem mais, um deles veio na 1dasul, comprou uma camisa e um boné e agora em todo lugar que vai diz que é um dos meus. Meus? Vermes assim, nunca foi um dos meus.
Pior foi o outro que pegou alguns panfletos da loja, sem o meu consentimento e distribuiu num de seus encontros, isso é que é desespero para se filiar ao povo.
Nem a 1dasul, nem eu ou qualquer parceiro do nosso movimento, tem coligação com esses porcos, até porque desde o início agente levava as roupas nas costas, em sacos plásticos dentro do buzão, e não em carros com placa preta.
Meu voto eu dou pra minha mãe, pra meu pai, pra meus amigos da escrita e do rap, pro meu povo que tem andado meio desacreditado. Vou dar meu voto a qualquer menino na rua, no farol, dentro da caçamba de lixo, mas uma coisa é certa, não voto em pilantra, porque prometi não votar mais nem nos menos safados.

Ferréz, a um passo de ir pegar um bom livro pra ocupar o tempo, e tirar a raiva da cabeça. Buk, to chegando aí rapaz, me espera.

(Ferrez é escritor e rapper em São Paulo, criador da marca de roupa 1 da Sul
confeccionadas por moradores da periferia.

Acessem: www.ferrez.blogspot.com)



IDÉIA PRA PERIFERIA

Idéia do Bairro: (Por Mano Edo)

V - Ainda há mudança.

Os meninos, desde que se formou a favela da Morenitas estavam planejando mudar, com a ajuda do coletor de recicláveis José, que doara o filhote de cavalo a Gustavo e Gugu. Mas Gugu dificilmente conseguiria mudar, sempre sem atenção, nunca compreensivo, sempre brigão, nunca arrependido. Já Gugu ficava preparado para ouvir muitas coisas que saberia que ajudaria em inúmeras outras coisas em sua vida.
Certo dia um educador estava passando ao lado do muro do CAIA onde os meninos ingressariam para fazer atividades arte-pedagógica-educativas no segundo semestre de 2004, observou ambos e chamou para conversarem. Juarez compreensivo e hospitaleiro quis fazer uma proposta para os meninos coletores de recicláveis, dando uma pequena ajuda para fazerem atividades sem que fossem o segundo semestre do ano de dois mil e quatro. Comenta Juarez que certo dia viu-os no centro com um carrinho cheio de recicláveis e achou muito difícil para crianças como eles. Juarez dá a oportunidade de eles fazerem atividades no projeto, que na intenção de Juarez, seria melhor no projeto ou fazendo seu próprio sofrimento. Com cautela e sentimentos recinta: - O Gugu lembra de mim. Sou o Juarez do projeto CAIA, lembra que você queria ingressar no projeto agora eu estou convidando para vocês serem uns do projeto. Vocês querem?
Gugu ficou calado como sempre, se fosse para responder coisas boas parecia que não há palavras e se fosse para responder o ruim, sobrava. Entretanto Gustavo para ouvir o arte educador prestou muita atenção ao que ele dizia.
Mas ouve uma intercalação quando aparece um outro menino e chama para eles irem tomar banho no horto municipal, onde haveria um açude. Gugu não queria muito saber o que Juarez estava falando e saiu com o outro menino, todavia Gustavo ficou ali até Juarez terminar seu discurso retórico.
José o menino que doou o filhote de cavalo aparece e cumprimenta Juarez e Gustavo e fala do filhote.

- E aí Gustavo tudo bom! como está o Filhote de cavalo que está com você, se precisar de alguma coisa a respeito pode falar que se estiver ao alcance eu te ajudo. E já conseguiu a charrete?

- Ainda não, mas tem um carrinho um pouco maior agora que conseguimos; e é mais leve para puxar. Quando o filhote crescer será melhor.

Enquanto isso Juarez continua a fazer o que tinha pra fazer.

Gugu volta até a cerca e chama Gustavo para ir até o açude tomar banho e esquecer do que estavam falando, e Gustavo recusa, fala: “vamos para o centro coletar recicláveis que daqui a pouco é noite, se não nós vamos perder dinheiro”. Gugu fala a Gustavo que não está nem aí.

- Eu não estou nem aí se eu perder hoje amanhã eu roubo alguma coisa na vila Yolanda e já era, já ganho meu dinheiro.

Em contraversão Gustavo fala o que adianta roubar hoje ou amanhã, nós teremos que trabalhar igual!
Enquanto os dois meninos ficaram levantando hipóteses e discussão vários coletores pegaram suas charretes com seus cavalos e se dirigiam para o centro em forma de frota. No entanto na idéia de Gugu está certo pensar o ruim, ainda há mudança a serem questionadas.

Hip-hop iguaçuense no Projeto "FERA COM CIÊNCIA" (Por: Mano Edo).

No dia 24 de novembro, os manos: Mano Guilherme e o Mano Edo saíram com a turma da Escola Dobrandino Gustavo da Silva com destino a Cascavel. O objetivo é representar a cultura de Foz com o elemento Break no FERA. Chegando lá encontramos pessoas de várias cidades que estavam reunidas em uma tenda enorme onde seria a abertura do evento que no caso é um Mega Evento do Governo da Secretaria de Educação.No dia da abertura do evento encontramos um Mc e um Dj que soltaram um som em cima da base, e mandaram um som chamando os B. boys e B. girls que estavam presentes, então apareceu alguns e fizeram aquele Freestyle. Depois que mandaram o som, conhecemos ambos e trocamos algumas idéias a respeito do hip hop. O Mc Dnh e o Dj JP se interessaram em fazer uma conexão Foz e Cascavel para fortalecer a cultura.
Durante todo o evento teve várias apresentações de Danças, Teatros, Músicas, Ciências e Desenvolvimentos de outros tipos de artes, tais como Circo, Capoeira, Grafite do Muro para as Camisetas. No dia 25 o Mano Mc Lelinho e Mc Ratão (Pesadelo Real, Foz do Iguaçu) se apresentaram No "Palco da Música" rimaram e deram algumas idéias em suas rimas onde o pessoal gostou e aplaudiu. “Representaro memo".
No dia 26 a Escola Dobrandino Gustavo da Silva, que caso nós estávamos representando, apresenta uma pequena coreografia de dança de rua composta pelos B. Boys Cleone, Wesley, André e a B. Girl Najela que foram ao "Palco da Dança" e representaram o Elemento Break Iguaçuense e finalizando com um Freestyle, onde apareceu mais B. Girls e B. Boys. Os dançarinos se reuniram, dançaram e trocaram algumas idéias. A apresentadora do "Palco da Dança" quis saber um pouco do que era a dança e o que simbolizava e o Mano Edo explicou um pouco. (teve várias Crews locais que apresentaram o Break, uma delas Aliens Force Crew, Dna e outras). E no dia seguinte foi a vez do Irmão Mano Guilherme (Eloquëntes) que ganhou um espaço e mandou sua rima (Meu melhor amigo), "sem medo tio" e o Arte Educador B. Boy Mano Edo Poeta Marginal, representou o break com o Eloqüentes no "Palco da Música".
No dia 28 no período da manhã, depois de um cortejo foram apresentadas todas as oficinas desenvolvidas durante o evento no "Palco da Música" (que era a maior tenda do evento), e após o almoço nos dirigimos ao alojamento onde todos os alunos e professores se despediam da nova amizade, do alojamento, do Fera e da cidade de Cascavel, porém levando consigo novas experiências de vida.

MOVIMENTO HIP-HOP DE FOZ É TEMA DE TCC.

O trabalho desenvolvido pelo estudante Danilo George Ribeiro é intitulado As Muitas Faces de Foz do Iguaçu a Partir do Movimento Hip-Hop. Danilo cursa História na Universidade Estadual do Oeste do Paraná em Marechal Cândido Rondon e aproveitou os feriados e fins de semana para viajar pra Foz e fazer a pesquisa de campo. Em dois anos de pesquisa e estudo adquiriu com os manos do Hip-Hop local grande material fonográfico e informativo, além de fotos e diversas entrevistas. Alguns dos bairros visitados para fazer as entrevistas foram: Cidade Nova, Favela do Queijo, Favela da Mosca, Favela do Cemitério, Jd. Lancaster, além de acompanhar os shows que estão em constante movimento pelos bairros. Nas palavras do autor, o trabalho propõe discutir, numa perspectiva histórica, as linguagens que expressam práticas e relações socioculturais vividas a partir do Movimento Hip-Hop e da análise de Fanzines constituídas pelas articulações do Movimento Hip-Hop. Busca-se apreender dinâmicas tecidas pelas tensões e disputas vividas naquela realidade pela juventude das periferias que produzem outras significações de pertencimento, as quais conflitam com a memória hegemônica da cidade e as apropriações concedidas pela indústria do turismo. Dessa forma pretende-se perceber a cidade a partir do viver urbano da experiência periférica, no qual o movimento Hip-Hop aparece como possibilidade de expressões e narrativas desses sujeitos.

O estudo traça a trajetória do Movimento Hip-Hop em Foz do Iguaçu a partir dos anos 90 e como os ouvintes e amantes dessa cultura passaram a praticá-la. Narra a formação das primeiras organizações de Hip-Hop da cidade, como o MH2I e o Cartel do Rap e também o surgimento dos primeiros grupos, como o Mundo Iguaçu e o Aliados da Periferia. Segundo Danilo a pesquisa teve por objetivo abordar a constituição das periferias na cidade a partir da trajetória desse movimento. Nesse sentido, considerou o autor, que o Hip-Hop age como uma espécie de tradutor das expressões de memórias de moradores das periferias iguaçuenses, que de outras formas dificilmente se manifestariam.

Alguns dos grupos entrevistados durante o desenvolvimento do trabalho foram: Quinto Naipe, Mandamentos da Rua, Inimigos da Guerra, Santiago, Profecia da Fronteira, Conexão PB, e Toninho (esse um dos primeiros praticantes dessa cultura na cidade de Foz). O grafiteiro Woloco cedeu informações sobre o elemento grafite (um dos 4 elementos do Movimento Hip-Hop) que é bastante visível pelos muros da cidade. Mano Edo – poeta marginal em Foz – cedeu entrevista falando sobre a poesia da periferia, o elemento break e os projetos sociais de que ele participa. O trabalho aborda ainda as ocupações, que hoje já não se concentra somente nas áreas de periferia, mas também em regiões centrais.

O trabalho de Danilo buscou o resgate da história a fundo, desde a Quinta do Hip-Hop no bar Verdega, os eventos no Taberna, Café Concerto, Urbanus Bar e na Praça do Mitre. Os shows de rap nos bairros e os shows de grupos de outros Estados trazidos para Foz. Mostra o intercambio cultural com ativistas do Hip-Hop de Londrina (organizado pela Casa do Teatro) através de oficinas. O programa de rádio La Onda (comandado por Dj Caê), o Mortal Kombat de Freestyle, o beat box, o Break, o apoio das lojas Laysla e Vertical Hip-Hop, o Fanzine do Cartel do Rap e diversas outras atividades e acontecimentos dentro da cultura Hip-Hop local.

A respeito dos Fanzines – que na sua opinião é uma das maiores ferramentas de expressão – ele afirma: “os Fanzines surgem primeiramente como mais uma forma de manifestação, dando lugar a criticas, indignações, lutas, sonhos, denúncias que eram cantadas, e passam a ser escritas através de poemas, textos, pensamentos, e reposta a imprensa convencional. Através desse material percebemos uma nova possibilidade de expressão da favela. O Cartel do Rap a partir dessa produção de material não usava somente a música para atacar, contar e narrar fatos vividos: o Fanzine tem de certa forma um caráter conscientizador, e educativo”.

Esse é um trabalho digno de aplausos, feito com muita garra por esse guerreiro que é o Mano Danilo. Que apesar de estar morando em outra cidade, dispôs de seu tempo vago – que já é pouco – para pesquisar a cultura Hip-Hop mundial, nacional e local. Ele que até foi enquadrado pela polícia na Favela da Mosca e acusado de ter roubado um carro que estava estacionado na entrada da favela. O engraçado é que o carro era seu. Essa atitude da polícia para com os moradores do gueto, de chegar enquadrando, engatilhando e apontando armas e agindo com violência e preconceito, acusando os moradores da favela de ladrões, também está registrado em seu trabalho.

O Movimento Hip-Hop iguaçuense só tem a agradecer, ficamos sem palavras por esse trabalho que pra nós é como se fosse um troféu em merecimento a toda a resistência dos guerreiros que construíram o movimento na cidade. Fecho esse artigo com as palavras do Mano Danilo e sua percepção a respeito do Hip-Hop de nossa cidade.

“Quando iniciei minha pesquisa sobre Hip-Hop, no final de 2006, eu idealizava os lugares periféricos da cidade de Foz do Iguaçu como aquele local da pobreza, tristeza, exclusão, diferença, violência, preconceito, sujeira, exploração. Ao entrar nesse universo me deparei com um povo guerreiro que sobrevive às situações mais adversas e que renunciam ao posto de vítima e não sustentam a fraqueza que lhes são muitas vezes atribuída, e assim vão ultrapassando barreiras todos os dias, não somente aquelas barreiras impostas pela divisão de classes mas, aquela da diferença, do olhar preconceituoso, na qual muitas vezes colocamos como inexistentes da nossa parte, mas ao conviver com o “outro” nos deparamos com nossas próprias contradições. Assim fui com muita dificuldade renunciando a parte dos meus pré-conceitos, e adquirindo novas experiências. Inicialmente meus contatos nas periferias se deram com jovens e crianças dessas regiões que, como a de todas as outras partes, possuem sonhos, lutas, desejos, e um conjunto de sentimentos que permeiam nossas vidas; assim pude entender que antes da pobreza, exclusão e toda essa perversidade da nossa sociedade, existe uma vida, uma memória, uma trajetória, que formam um conjunto de relações que parcialmente busquei explorar através dos moradores dessas regiões aqui nesse trabalho. Dessa forma posso afirmar que esse trabalho inicialmente foi pensado visando a elaboração de um TCC, mas ao me envolver com essas pessoas e com estes locais tudo o que menos me interessa é a minha apresentação, a minha nota, a repercussão que este trabalho teve ou terá na academia, por que o que eu vivi e aprendi nesse trabalho de campo não irá constar no meu Currículo Lattes, nem me sustentará num concurso ou numa vaga de emprego, mas com certeza os valores aprendidos, o respeito, a consideração aqui empreendida, ninguém será capaz de tirar essa experiência de mim. (...)”.

NOTA DO EDITOR.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE:

O autor não teve a oportunidade de conversar com todos os militantes da cultura Hip-Hop local. Vale deixar claro que existem outras organizações na cidade que não foram citadas nesse trabalho como CIA de Rua (Prof. Michael), Urban Way (Pedro) e Fronic's (Cleo). Vale-se dizer também que o movimento Hip-Hop de Foz está em constante mutação e crescimento e após o término do trabalho já surgiram novas organizações como a Banca Forte e o Cartel do Break.

Veja o trabalho completo:

http://fanzinecarteldorap.blogspot.com/2008_05_01_archive.html

A CIDADE É A CASA DO HOMEM (Por: Luiz Henrique Dias da Silva)

ALMIRANTE BARROSO

As pessoas que se aventuram em “subir” a Rua Almirante Barroso podem apreciar as belas lojas ali instaladas. Eu particularmente gosto mais da livraria, mas há possibilidade de atender a todos os gostos: várias óticas, loja de discos e, claro, lojas de roupas. As mais requintadas da cidade. Mostram, em suas oponentes e iluminadas vitrines, as tendências da moda, as cores da estação, o requinte, o “bom gosto” e a ousadia. Agora, garanto: o que mais chama a atenção dos que por ali passam não são as roupas da moda. São os preços. Muitos podem dizer que “ninguém é obrigado a comprar, paga quem quer” ou “você diz assim porque não pode comprar em uma dessas lojas” ou frases do gênero. O fato é que poucos moradores de nossa cidade podem ter acesso aos produtos que as lojas ali expõem. Podemos ser mais precisos se dissermos que muitos cidadãos mal conseguem pagar suas contas, seu aluguel, comer com qualidade, se vestir dignamente e ter lazer. Os donos dos estabelecimentos não têm culpa e não devem ser condenados pelas mazelas da sociedade, mas deveriam, no mínimo, ter vergonha de mostrar o luxo ao cidadão comum. Nesta sexta, um morador de rua estava parado em frente a uma loja dessas. Ficava olhando. Apreciando as roupas que embelezam (ou não) as madames desta sociedade segregada e individualista. Eu passei por ali e segui meu caminho. Antes de dobrar a esquina, não pude me conter e olhei para trás. Ele ainda estava ali.

(Luiz Henrique é professor e estudante de arquitetura em Foz do Iguaçu.

e-mail: imobz@hotmail.com)

Fonte: www.acasadohomem.blogspot.com

BIBLIOTECA COMUNITÁRIA

Uma alternativa para a periferia (Por: Eliane Silva Pinto)

O pequeno Ricardo dos Santos de 7 anos é freqüentador assíduo da biblioteca comunitária no bairro Recreio dos Republicanos em Sorocaba. Ele se esforça para ler os livros, todo esse esforço tem um objetivo: ajudar na renda da família. "Tem que saber ler, senão como vou arrumar trabalho?".

Esse é o retrato de um bairro carente da cidade, onde as preocupações das crianças e adolescentes não está em apenas estudar e brincar. Por meio dos livros, Ricardo conhece outras culturas, histórias e adquire conhecimentos para ter um futuro diferente de muitas crianças e adolescentes de bairros carentes, que por falta de incentivos buscam no crime e nas drogas uma oportunidade. A biblioteca Sabotage no conjunto habitacional Sorocaba "K" tem mais de dois mil exemplares, os livros foram adquiridos por meio de doações de outras bibliotecas e da população. O projeto foi idealizado por Márcio dos Santos Moreira e Josué Lima, militantes da Nação Hip Hop Brasil, com a ajuda da ONG Kairós. Além da biblioteca, o espaço também oferece aulas de capoeira para as crianças e jovens. Segundo Márcio, o objetivo para o próximo ano é oferecer aulas de informática e aulas de alfabetização para adultos e crianças. "Se essas crianças e jovens não tiverem outra coisa para pensar, outra alternativa, eles vão para o crime. Eu fui criado em uma periferia e passei por muitas dificuldades, meu irmão foi preso e morreu na cadeia. Não quero que aconteça com essas crianças o que aconteceu comigo por isso eu me preocupo com elas e quero mostrar que existe uma saída", afirma Márcio.

Para a representante da ONG Kairós Edite Barbosa, por meio da leitura é possível apresentar outra alternativa para crianças e jovens. "As crianças do bairro não têm acesso a muitos livros, acesso à cultura, esse projeto aproxima os livros e a cultura das crianças e oferece uma outra alternativa", ressalta.

Fonte:
www.nacaohiphopbrasil.com.br

Street Dance “ What a hell is iT?” (Por Pedro Ameida)

Primeiro foram os grandes salões com seus minuetos e suas polcas que deram origem à dança Clássica e as danças de Salão, conhecia-se assim aos três grandes grupos matriz; As Danças Clássicas, As Danças de Salão e as Danças Folclóricas, sendo a terceira a representação dos atos festivos e comemorativos de determinada região ou lugar específico. EUA 1929, com a grande crise que dera início ali, todos os artistas que brilhavam nas grandes casas noturnas estavam agora desempregados. Os incríveis shows mans que estrelavam as grandes noites com suas perícias no Tap (o famoso sapateado americano) junto a seus saltos acrobáticos e férulas quase que circenses estavam agora na 'Rua'. Passam dessa forma a realizar suas performances em lugares pouco usuais como esquinas e praças. Fazendo nascer a partir daí a expressão Street Dancers que fazia uma menção semântica ao desemprego da época, aliás, não era propriamente no asfalto que suas apresentações eram realizadas.

A música, fator arterial de nossa evolução nas décadas seguintes, também começou a sofrer mudanças, o mundo ia conhecer depois do blues e do jazz o Funk junto a seu mais honroso apostolo James Joseph Brown Jr que revolucionou o mundo com seu Funk style music e seus passos próprios de dança. Mais foi Dom Campbell que sintetizou a primeira modalidade: o Lockyn.
Vale lembrar que antes havia sim Danças socias como o Robot e o Charliston, mais Dom Campbell e o grupo The Lockers fizeram algo que ultrapassava esses horizontes!
Logo depois veio Bogaloo Sam com o Poppyn, Stresh com Hip Hop Dance e varios outros, dessa forma o mundo começou a se perguntar o que são essas danças? Qual sua origem? Clássica ? Salão ? Folclórica?

O mais sensato depois de muito rolo na verdade foi criar uma nova matriz a Dança de Rua!
Ou seja: Entende-se por Danças de Rua ou Street Dance: Modalidade Matriz cujas modalidades pertencentes nos permite agrupá-las em um só grupo por sua semelhança em comum sendo algumas delas:

· Foram criadas a partir de danças sociais.
· Tem o felling como maior âmbito e regra.

Uma vez que o processo evolução e conhecimento de uma modalidade ou vertente de dança é algo demorado, por exemplo, há varias brigas no ambiente do Ballet e os 'caras' tem mais de 1000 anos de existência, ou seja é natural que tenha alguns conflitos de opiniões ou algo do gênero.
Por ser uma modalidade jovem que prega a liberdade coreografica e a identidade pessoal como praticante, já sofremos muito com o preconceito e a ignorância, na real ainda rola mas, nem compara, houve época que um professor de jazz não concordava que Dança de rua podia ser chamada de Modalidade de dança e quem dirá estar no mesmo festival de dança com grupo de dança de rua. Felizmente ou infelizmente hoje sofremos apenas com a ignorância de alguns praticantes quando estes não respeitam algumas das vertentes ou ignora as informações que o MUNDO TRAZ.

(Pedro Almeida é estudante de Danças e arte-educador em Foz e Itaipulândia).


VOZES DA FAVELA (Por Adriana Facina)

A favela nunca foi reduto de marginal
A favela nunca foi reduto de marginal
Ela só tem gente humilde marginalizada
E essa verdade não sai no jornal
A favela é um problema social
A favela é um problema social
Sim. mas eu sou favela
Posso falar de cadeira
Minha gente é trabalhadeira
Nunca teve assistência social
Ela só vive lá
Porque para o pobre, não tem outro jeito
Apenas só tem o direito
A um salário de fome e uma vida normal
A favela é um problema social
A favela é um problema social

(Sergio Mosca e Noca da Portela)

Outro dia eu estava no morro de São Carlos fazendo umas entrevistas com MCs e, enquanto caminhávamos pelas ruas e vielas, iniciei uma conversa com uma senhora que nos acompanhava. Ela é mãe de um casal de MCs muito populares no lugar e, nas suas palavras, é “cria do São Carlos com muito orgulho”. Cria é uma gíria muito usada nas favelas para designar aquelas pessoas nascidas e criadas nas comunidades e, geralmente, é um termo que vem carregado de um sentido de identidade positiva. Os crias são pessoas que se orgulham da sua origem e, quando ganham projeção como artistas ou outra atividade valorizada, se tornam também motivo de orgulho de toda a favela. Sempre que visito as favelas, alguém se encarrega de me dizer quais são os crias mais importantes daquela região, em geral jogadores de futebol, músicos, compositores etc. Esses crias são, assim, uma espécie de cartão de visitas das favelas, uma prova concreta para quem vem de fora de que ali não há somente miséria, violência ou carências.

Mãe de dez filhos, a senhora me falava de como o morro era um lugar bom de se morar, já que todo mundo se conhecia e fazia comparações com a vida das pessoas que moram em prédios de apartamentos no asfalto, nos quais os vizinhos mal se falam e não sabem nem os nomes uns dos outros. Eu ia ouvindo e concordando, mas caí na besteira de falar uma frase do tipo “só é ruim a violência policial, né?”. Acostumada com a estigmatização que atinge a população favelada, imediatamente a cria do São Carlos reagiu: “não, aqui não tem violência não, é mais calmo do que lá embaixo. O pessoal daqui é trabalhador em sua maioria.” Ela entendeu que eu tava dizendo que a favela é um lugar violento, associado ao tráfico. Eu, aflita, tentei me explicar, dizendo que a polícia é que era violenta e mais ainda nas favelas. Ela compreendeu, mas, durante todo o tempo em que permaneci no morro, sempre fazia uma ou outra menção sobre as vantagens de se morar ali e sobre a tranqüilidade da comunidade. “Aqui você pode dormir de janela aberta e ninguém fecha as portas. Ninguém rouba nada de ninguém.”

Esse tipo de situação, de modo mais sutil, sempre se repete nas minhas visitas a essas áreas da cidade. Ao mesmo tempo, é visível a satisfação das pessoas ao perceberem que quem vem do asfalto está “tranqüilona” no morro, o que quer dizer que se está ali sem medo, mesmo quando se cruza com varejistas armados. É sempre um dos “testes”: passou o “bonde”, todos se preocupam com sua reação, se você vai ficar com medo, se vai querer ir embora, o que vai achar da comunidade. Vendo isso de perto, percebo o quanto são ofensivas as matérias dos jornais que todos os dias reforçam a equação favela = lugar de bandido, logo corpo no chão na favela = traficante. Além de justificarem a política cotidiana de extermínio de pobres, elas têm uma dimensão mais profunda e subjetiva, que atinge a auto-estima das pessoas, suas identidades, sua maneira de se entender no mundo. Daí a necessidade de reafirmar o tempo inteiro para quem vem de fora as coisas boas da favela e, sobretudo, a integridade de seus habitantes. “O morrão é tranqüilão.” “Quem vem na Rocinha logo se apaixona pela comunidade e quer sempre voltar.” “O Borel é celeiro de artistas.” “O morro é isso aqui que você tá vendo, essa tranqüilidade, criança soltando pipa, o que estraga é o que vem de fora, a polícia, é só deixarem a gente em paz que fica tudo bem.” E por aí vai.

A contraface disso são as afirmações do asfalto que ouço quando falo do meu trabalho, do tipo “poxa, como você é corajosa!” ou então “você é maluca!”. Parece que o estrago está feito: transformadas em gueto, as favelas ficam mais sujeitas aos planos colômbias que impõem repressão brutal e caos aos de baixo, sob o pretexto do combate à criminalidade (ou tráfico, ou mesmo terrorismo, dependendo do contexto). No imaginário social, o traficante que ameaça a boa sociedade é um jovem preto, magro, favelado, portando um fuzil. E isso é muito grave, pois muita gente de tradição progressista se exime de criticar de forma mais consistente a política de insegurança pública em curso porque, afinal de contas, “alguma coisa tem de ser feita”. E, se essa “alguma coisa” inclui deixar corpos estendidos no chão das favelas, existe sempre a justificativa dos excessos, do despreparo da polícia ou qualquer outro termo que apresente como acidental aquilo que é pensado para ser exatamente o que é. E é nesse vácuo que crescem Crivellas com seus cimentos sociais manchados com o sangue dos garotos da Providência, na sinistra aliança entre o tráfico e a seita com quem os patrões estão “fechados”.

Numa das conversas com MCs, dessa vez na Rocinha, surgiu uma imagem sobre essa separação entre asfalto e favela. Alguém falava sobre as dificuldades de quem mora no alto do morro, subir com compras, essa coisa toda. Num tom jocoso, outra pessoa disse: “poxa, pelo menos vai ser bom quando o nível do mar subir e inundar tudo. Só vai ficar favela no Rio de Janeiro.” Aí eu lembrei daquele filme, O dia depois de amanhã, no qual mudanças climáticas radicais fazem com que os americanos fujam em massa para o México, invertendo o sentido do fluxo migratório que hoje é alvo de uma política altamente repressiva do governo dos EUA. No filme, os mexicanos, ao contrário dos seus irmãos do Norte, recebem de braços abertos os imigrantes. Todos rimos muito, mas, num tom sério, meu amigo MC Junior falou: “pois aqui o pessoal do asfalto seria muito bem recebido também, você pode ter certeza disso.” Eu não duvidei.

Adriana Facina (Observatório da Indústria Cultural / UFF).

Fonte: www.oicult.blogspot.com

publicado originalmente em www.fazendomedia.com

HIP-HOP PARANAENSE

ESPAÇO DO RAP PARANÁ

DVD ESPAÇO DO RAP PARANÁ

Foi gravado no Ganesh Bar em Toledo, no dia 30 de agosto de 2008. Conta com grupos de diversas cidades do Paraná, como Toledo, Cascavel, Paysandu, Umuarama e Foz do iguaçu. Um ótimo DVD pra ficar antenado com o que está rolando na cena Paranaense. os grupos que mandam um som nesse show são: Estilo de Rua, Gladiador da Zona Oeste, Visão Periférica, G Force, Aliados da Periferia, Inimigos da Guerra, Cativeiro do Gueto, Verso Marginal, Alvos do Sistema, Conexão do Gueto, Thiagão e os Kamikazes do Gueto.

Contato: (45) 9947-7001 / (45) 9124-1486


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RESISTÊNCIA RESISTÊNCIA.
O Vale da Sombra da Morte.

O grupo é da cidade de Rolândia e esse é o seu´primeiro trampo. O CD foi produzido e gravado no Êxodo Estúdio e masterizado por Will. O grupo segue a linha do rap gospel, com mensagens positivas e ótimos refrões. Certamente veio pra se destacar na cena paranaense e nacional.

Contato: (43) 9963-5567 / (43) 3526-6653
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INIMIGOS DA GUERRA
INIMIGOS DA GUERRA
Entre o Poema e o Crime.
O grupo de Foz do Iguaçu vem se destacando no cenário paranaense. Com boas letras, cantadas com sentimento, o grupo versa sobre a guerra, sobre o amor e sobre o ódio; o amor de uma mãe e o ódio de um pai que não assumiu o filho. O grupo é formado por Fernandinho, Geovane, Dj Lincoln e Fabiano (Backing Vocal, que traz as melodias pros refrões). Com certeza, um dos álbuns mais expressivos do cenário iguaçuense. A canção Zona Sul em Guerra narra a criminalidade e a violência policial.

Contato: (45) 9125-3338


CARTEL DO RAP AO VIVO.
Cartel do Rap ao Vivo
No ano do 8° aniversário, a Banca CDR (Carteldo Rap) lança esse registro histórico.
O audio do show foi gravado no Casulo Rock Bar (Bar Underground de Foz do Iguaçu).
Os grupos que fazem parte dessa coletânea são: Inimigos da Guerra, Pesadelo Real, Santiago, DNA do Rap, Mano Zeu, Eloquentes, Aliados da Periferia, e Conexão PB.
O álbum conta ainda com um freestyle muito loco feito sobre o beat box.
Faz seu corre e garanta o seu, a edição é limitada.

Contato: (45) 8417-3726.

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FEDERAÇÃO REPÚBLI-K
Federação Repúbli-k
Diretamente de PG o novo trampo do Federação Repúbli-k.
Babilônia a Pé.
O lado B mais forte que nunca.
No melhor estilo Underground.
Participações:will no control / Careca, rajada mc´s / Soul kris / Colônia DNA / Vigilia Negra.
Ouça o som:www.myspace.com/federacaorepublik
Contato: (42)32221298 / 99322930
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PENSAMENTO RACIONAL.
Tá nas ruas o CD do grupo Pensamento Racional de Campo Mourão.
Na cena desde 2004, Pensamento Racional se destaca pelos temas e abordagens sob o ponto de vista do individuo. Em 2007 o estilo do grupo gerou uma fusão com o rapper Will No Control que já tinha lançado seu álbum "O Dom", sendo amplamente reconhecido no cenário do rap no Paraná. As bases ousadas são produções própria que buscam os elementos da música erudita ao pop para criar o universo de suas produções.
Já tá nas ruas o álbum "Coração de Plástico”
Faz seus corre e garanta o seu.
Contato: 044 9969 5040 - Falar Com Will

óIA sÓ (Por: Lizal)

MÚSICA DE RAÚL SEIXAS:

Ninguém nesse mundo é feliz
Tendo amado uma vez.

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A revista Caros Amigos abriu crédito junto ao Google pedindo para quando alguém digitasse a palavra “tortura” aparecesse na tela a capa da edição de setembro que mostra uma mulher sendo torturada. Mas, a capa foi censurada pelo Google que alegou “conteúdo inaceitável”. A foto da capa, complementada pela frase: “Barbárie não se anistia” foi tirada do próprio Google, na busca de imagens.

(No editorial da edição de outubro a revista deixa a pergunta: “Será o Google favorável ou no mínimo indiferente à tortura, já que põe à disposição a mesma imagem num contexto em que o crime mostrado, além de não ser condenado, ainda recebe mensagens de usuários em mórbida satisfação pela beleza do corpo torturado?”).

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O apresentador do programa policial:

- Tem algo errado com a cidade de Foz, estamos a tantos dias sem nenhum assassinato.

(Que zé povinho!!! Se estamos sem assassinatos é porque tem algo certo com a cidade...).

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Na Jamaica, a lei proíbe que artistas falem palavrões no palco.

(A Jamaica é foda!!!).

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JÁ VAI TARDE

Quando Fidel Castro anunciou que estaria deixando em breve o poder político cubano a revista Veja publicou matéria de capa com a foto de Fidel e a frase: “Já vai tarde”. Agora com essa quebradeira no capitalismo o jornalista e escritor Georges Bourdoukan fez justiça e escreveu um artigo intitulado: “Já vai tarde”. “Veja” alguns flashes:
“As raízes da árvore frondosa do capitalismo estão podres. Seus galhos começam a despencar. Uma brisa, apenas uma brisa para sepultar definitivamente o sistema. E já vai tarde. (...). Um espectro assombra o século 21. A aurora da liberdade (...)”.

(Salve Bourdoukan).

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Frase de Edmund Burque:

“Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que as pessoas boas não façam nada”

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Óia só a propaganda da Coca-Cola numa revista:

Pensar que o copo pela metade pode estar 50% cheio.
O jeito Coca-Cola Brasil de pensar positivamente.

98% da água utilizada no processo industrial é tratada para ser devolvida à natureza.
Utilização de 5% de biodíesel em 140 caminhões da frota para reduzir a emissão de CO2 em 430 toneladas/ano.

(Assim como o Aliado G eu “Não bebo suave veneno”).

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O RAPPER NAS, NÃO PARA.

Recentemente o rapper norte-americano Nas causou polêmica no movimento hip-hop gringo por usar o termo Nigger, forma pejorativa de chamar os negros nos Estados Unidos. Com isso chamou a atenção para a discussão sobre a questão racial. Sua nova façanha foi acusar a Fox de veicular propagandas racistas. Ele se juntou a organizações políticas e entregou uma petição para a emissora com 620.127 assinaturas. A petição acusa a emissora de ter direcionado ataques racistas contra Barack Obama e sua esposa. Em uma das músicas de seu álbum ele acusa a Fox de Racista. Nas organizou um protesto em frente a sede da emissora.

(Ferrez, escritor e rapper paulista, em entrevista a revista Rap News foi categórico em responder o que achou da atitude de Nas: “A Fox é direcionada também, assim como toda a mídia que tem um dono. No caso o apresentador Bill O'Reilly falou o que não devia, e é notório o comportamento racista de toda a mídia americana. Não foi diferente a postura desses canais durante a guerra, mostrando somente o lado americano da ofensiva, assim com a BBC e a CNN. O que estamos precisando é desses espelhos aqui, ninguém aqui protesta por nada. O Hip-Hop é totalmente omisso em nosso país, só se manifesta quando é alguma parte política, e assim não adianta, pois não traz a legitimidade de todo o movimento”).

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Na religião da solidão
A tristeza é uma prece

(Diz o véio deitado)

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FRASE DE NICHOLAS GEORGECUS

“Se cada chinês, indiano ou brasileiro fosse viver como um americano, precisaríamos de três planetas”.

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ÓIA SÓ:

O futuro do capitalismo pode estar nas mãos do partido comunista chinês. Eheheheheh. O economista Arvind Subramanian sugeriu que os Estados Unidos peguem dinheiro emprestado da China - 500 bilhões de dólares - para ajudar na recuperação do sistema financeiro. A China que tem quase dois trilhões de dólares em reservas de moeda estrangeira poderia quebrar mais ainda os Estados Unidos se trocasse uma parte desse dim dim em euro e o dólar não predominasse mais como moeda universal. A China tem pra casear, se mostrou disposta a ajudar, mas dá prioridade ao próprio país.

(É o capitalismo na UTI).

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MÚSICA DO GRUPO AO CUBO

Morra pela pátria
Mas,
Morra pelas costas

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Óia a malandragem:

Em Foz do Iguaçu a favela não paga IPTU. Sendo assim não paga também a taxa de coleta de lixo, que era cobrada juntamente com o IPTU. A prefeitura aprovou uma lei (132/2007) que passa a cobrança da coleta de lixo para a Sanepar. A taxa virá incluída na fatura mensal de água/esgoto.

(Já tem maluco fazendo gato na água).

ELOS DA ESPERANÇA (Por: Mano Adão)


Porque que nós somos tratados assim?
O que a gente fez de errado?
Só porque nascemos diferente
Com uma cor forte, marcante e pura?
Mas isso não quer dizer nada
Nós também somos seres humanos
Mas mesmo assim somos tratados
Com preconceito, ou alguma piadinha
Sem graça, mas isso parou um pouco
Porém, isso vem de muitos séculos atrás
Muitos dos nossos sofreram pra ganhar a liberdade
Agora vem nos falar que foi uma princesa que nos salvou
Só fez isso pra ser lembrada
Eles mesmos fizeram sua própria liberdade
Através de luta e sofrimento
Abraçados no tronco de uma árvore
Acorrentados...
Cada elo da corrente tem gotas de sangue
Choro, tristeza, dor que nunca se acabará
E por cada chibata do feitor
Um grito de socorro
Um grito sem som e com muito lamento
Já passaram muitos por ali
Em cada milímetro do chicote
Marcas de ódio
Raiva e maldade do feitor
Há um pico de esperança
Um motivo de sorriso
Um riso amarelo
O sorriso do sofrimento
Mas é um riso...
Quem sabe um riso de vitória

Daqui pra frente as coisas vão melhorar
Vão se quebrar cada elo da corrente
Com sua vontade de viver e de ser feliz
E mostrar que podemos estar de igual pra igual
Algumas pessoas vão ficar com raiva
Mas isso não vai adiantar
Nós somos Mancha Negra
Uma mancha de muito talento, dons, alegria e culturas

Mesmo na parte difícil da vida
Sempre terá um sorriso sem medo
E cada elo da corrente será uma criança feliz
E se tornará uma pulseira de ouro e de amor

Por cada elo da corrente
Sempre haverá uma esperança

(Adão é B. boy em Foz do Iguaçu, integrante da Crew Cartel do Break).

INTERCÂMBIO (Por: Lizal)

O gerente chamou a nova telefonista até sua sala. Trancou a porta e começou a assediá-la.

- Você é muito linda. Disse-lhe passando as mãos em seus cabelos.

A moça que enfrentara cinco meses de desemprego, precisava muito desse trabalho.

- Vem com o papai. Insistiu.

Ela relutou, mas não conseguiu escapar das garras do chefe. No canto da sala ele havia instalado uma câmera que filmava tudo para ser exibido em uma festinha particular para os amigos. Depois daquele dia a mulher nunca mais foi a mesma, andava cabisbaixa, triste, já não cuidava da filha como antes.

O mundo é feito de mundos diferentes.

O gerente embarca em seu carro importado e acelera sem olhar pro ponto de ônibus onde a moça que violentara espera a sua condução que certamente passará lotada e chegará uma hora e meia depois ao seu destino.
No dia seguinte o gerente chamou o funcionário negro e xingou-o na frente dos clientes.

- O que ta acontecendo? Você é burro? Colocou o preço errado nessa mercadoria. O prejuízo será descontado no seu salário. Tem que ser preto mesmo.

O rapaz enfureceu-se, mas não falou nada, precisava muito do salário. Tinha mulher e filhos pra sustentar. Chegou em casa, olhou para os filhos com vergonha. Torceu para que crescessem homens corajosos, com coragem para dar um soco na cara do chefe, se preciso fosse.

O mundo é feito de mundos diferentes.

Enquanto o rapaz pedalava forte a sua bicicleta, viu seu chefe passar a toda velocidade ao seu lado, ignorando-o. Vendo os filhos dormirem lhe bateu uma tristeza imensa e um sentimento de impotência. Uma lágrima caiu dos olhos daquele homem. Tem quem acredite que as lágrimas têm o poder de mudar a ordem das coisas.

Era uma sexta-feira, dia de pagamento e o movimento na loja estava forte. No final da tarde o gerente caminhou até o caixa eletrônico que tem no andar térreo do prédio comercial. Colocou seu cartão e se assustou.

- 500 reais, o que é isso? Deve estar com problema.

Quando passou pela recepção a moça telefonista falou ironicamente:

- Cortaram um zero do seu salário chefinho?

- O que está acontecendo?

- Esse mês eu recebi o seu salário de 5 mil reais e você pode ficar com o meu de 500 reais.

- Você ta loca.

- Não to não. Isso se chama intercâmbio salarial.

O gerente não deu idéia e deixou para ligar mais tarde pro banco. No fim do expediente desceu de elevador até o estacionamento. Não acreditou no que viu, no lugar do seu carro estava a bicicleta do funcionário que ele humilhou. Na garupa tinha um pedaço de papelão com um recado: “Isso é só um intercâmbio chefe”. Ele ficou loco. “Deve ser uma brincadeira de mau gosto”, pensou. Não sabe o porque, mas resolveu entrar na brincadeira. Subiu meio desajeitado na bicicleta e foi pedalando até sua casa que ficava a uns vinte minutos dali. Chegou em casa e percebeu que tinha alguém lá dentro. Um funcionário da empresa abriu a janela. Em uma mão segurava uma taça e na outra mão uma garrafa de vinho. Quando viu o chefe lá fora gritou meio que gargalhando:

- Intercâmbio, meu querido.

Ele colocou a mão no bolso e percebeu que tinha uma chave e um papel com um endereço. Bairro tal, rua tal, casa tal. Quando ia subir na bicicleta viu que o pneu estava furado. Caminhou até um ponto de ônibus e ficou meia hora esperando. Subiu no latão lotado e se espremeu no meio do povo. Não estava acostumado com o cheiro forte de suor dos trabalhadores e começou a ficar mal. O ônibus demorou mais de uma hora pra chegar, ele já estava querendo saltar pela janela. Nunca tinha entrado numa lata de sardinha dessas.

O mundo é feito de mundos diferentes.

Foi pedindo informação até achar a casa, um bom tempo depois.
Adentrou a casa humilde, de tijolo vermelho, sem reboco e sem nenhum luxo. Tinha um quarto, uma cozinha e um banheiro, poucos móveis e quase nada na geladeira. Havia fezes de rato sobre a mesa e no chão uma galera de formigas carregavam uma barata morta. A casa estava abafada e não tinha nenhum ventilador. Sentiu falta do ar-condicionado e de todo o conforto que desfrutava.

O mundo é feito de mundos diferentes.

Não conseguiu ficar nem cinco minutos ali dentro e correu pra fora.

- Já chega!!! Acabou a brincadeira. Vou chamar a polícia.

Meteu a mão no bolso pra pegar o celular, mas só achou um cartão telefônico de vinte unidades. Caminhou bastante até achar um orelhão. Estava com defeito e não conseguiu ligar. Continuou caminhando até sair do bairro. Passou em frente a um prédio abandonado e escutou uns gritos. Não sabe o porque, mas a curiosidade o fez entrar no prédio. Viu dois rapazes violentando uma moça. Tentou sair correndo mas, foi capturado por um dos rapazes.

- Vem com o papai. Disse o rapaz.

O mundo é feito de mundos diferentes.

Depois de ser roubado, espancado e violentado, ele ficou deitado ali no chão com o corpo todo dolorido. Depois daquele dia nunca mais foi o mesmo. Uma lágrima caiu dos seus olhos. Tem quem acredite que as lágrimas têm o poder de mudar a ordem das coisas.

Poesias e Pensamentos

MOTIVO:

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento.

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou se desfaço,
- Não sei, não sei. Não sei se fico
Ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- Mais nada.

(Cecília Meireles).

CEM ANOS DE SOLIDÃO

A casa continua a mesma...
As paredes de bloco, sem reboco
O chão vermelho fosco, gasto
O forro ainda sujo
Baratas sobre a mesa
Devoram o que sobrou do último almoço
Ratos escalam as paredes
A poeira repousa sobre os móveis velhos
Na noite longa e triste
Ainda sinto seu cheiro no lençol
Meu coração se aperta
A saudade é pilantra
Tortura aos poucos
Mas, não mata.

(Lizal, Foz).

SURTADAS

Olhar você me faz tão bem
Deixa eu te sorver até a ultima gota,
Te ter
Absorver-te
Consumir-me em você
Seja minha droga
Minhas anfetaminas
Sibutraminas
Seja minha endorfina
Minha cocaína
Me acabar
Queimar-me em você até o final
Consumir-te
Consumir-me
Afogar-me
Ilusões doentias

(Mysk, Foz)

Sabedoria quase chinesa

se alguém não te alimenta
inventa
uma manhã de sol
fruta fresca
chá de hortelã
pra despertar a alma
com calma
porque o dia apenas começa
e amor não combina com pressa

(Célia Musilli)

* Veja mais poesias de Célia Musilli no site da Guatá: www.guata.com.br

Feliz natal

É nossa a festa
Que era dia do criador.
Mesa farta
Mesa falta
É nossa hora
De esquecer a dor.
A hora é de luz
As estrelas no céu
São o lustre do teto
Que a todos seduz.
A hora é de festa,
Mas outros meninos
De outras manjedouras
Carregam sinos pequeninos
Em usinas e lavouras.
A hora é de festa
Na casa do patrão
E na casa do empregado.
Numa Jesus não se manifesta
Na outra não foi convidado.

(Sérgio Vaz)

SOL

Você é como o sol
Que por onde passa irá brilhar
O brilho é a sua alegria
A sua felicidade
Que carrega em sua fisionomia

Quando está atrás das nuvens
Triste estás
Mas com todo esse brilho
Não pode ficar triste
Solte seu belo sorriso
Por que uma pessoa como você
Tem que continuar a viver

Continuar a brilhar
A todo instante
Sem desistir

(Edson de Carvalho, Foz)

Ciclos

Debato-me, resisto!
Luto contra esse sentimento
De entrega...
Que acontece mesmo
Que eu não queira
O ciclo da natureza
Repete-se em mim...
Caio na sua teia
Envolvida e acorrentada
Presa a um perigo eminente
Debato-me... percebo!
Sou presa fácil
Colada na trama
De um amplexo inesperado
Conduzo-me na sua melodia
Fecho os olhos...
Sensações...
Suspiros!
Deixo-me levar
Observo e me deixo observar
A respiração ofegante
Age por si mesma
Ouço o seu pedido
Atendo nossos desejos
Entrego-me...

(Mara Regina d´Almeida)

"... A poesia saiu porta afora
e o nosso amor
seguiu logo atrás."

(Lena Ferreira)

NOVELA DA VIDA REAL

Mais um Cidadão José Cap. 33

Os cinco malucos estavam sentados e olhando para o jornal sobre a mesa. José reconheceu o soldado Farias na capa do jornal. O crime teve repercussão internacional e a gazeta paraguaia exibiu sem pudor na capa o policial morto, todo sujo de sangue e com a orelha cortada. José esfregou os olhos, queria estar sonhando, acordar na sua goma e ver que tudo não passou de um pesadelo. Mas o jornal estava ali na sua frente e José pensou em falar que não foi ele que fez aquilo. Contar toda a verdade, que nunca pensou em se envolver com o crime e só aceitou o trampo de passar cigarro porque estava muito necessitado. Só pensava em trampar uns dois meses para saldar suas dívidas, não sabia o mundo que estava adentrando. Queria falar que está indo embora de Foz e vai levar seu filho e sua ex-esposa. Dizer que quer procurar um trampo digno e se jogar dessa babilônia, que isso ali não é a sua pira, que não se sente a vontade, que sente medo, que tem medo de morrer e de matar. Mas, certamente o mano Gê, o Mano Pio e os outros malucos rirão dele. “E nóis também acreditamos em Papai Noel”, imaginou o Mano Gê falando e dando risada. José estava com o jornal nas mãos tentando traduzir o que estava escrito em espanhol. De canto de olho viu que o Mano Gê estava sorrindo. Não um sorriso de alegria, mas de malícia; um sorriso de malandragem.

- Zé, eu tenho uma parada aqui pra você.

Ele abriu o zíper da pochete lentamente e José se arrepiou todo. “Carái, dentro de uma pochete dessa cabe um oitão batatinha, será que o doido vai subir meu gás”. Depois do que fizeram com o Mano Branco, José não desacreditava mais de nada, vindo daqueles malucos. O Mano Gê jogou na mesa um maço de dinheiro. O plaquê tinha 100 notas de 20 reais amarrados com uma borrachinha. José olhou pro monte de Mico Leão Dourado sobre a mesa e de cara não entendeu o que estava acontecendo.

- Dois mil reais extras, como o combinado. – disse o Mano Gê.

- Quem diria, hein Zé, ninguém dava nenhum real pra você. Cê é foda memo!!!
Ahahahahahha... colocou o gambé em seu devido lugar. Amigos se guardam a sete chaves e inimigos a sete palmos. Ahahahahahah. – brincou o Mano Pio.

- Cara, você foi periculoso!!! O lance de cortar a orelha do porco e deixar um salve ainda... isso foi uma jogada de mestre. – complementou o Mano Gê.

- Então Zé, já que cê ta com a paia, paga um café pros seus irmãos de cruz.

- É só pedir. – disse José com a voz meio trêmula.

O Mano Pio pediu empanada de carne e de frango – que foi servido junto com uns pedaços de mandioca – e um copo gigante de café com leite. José pediu uma esfiha de carne e uma sopa paraguaia; pra tomar pegou um chá gelado. O outro loco pediu duas marinera, uma de carne e uma de frango, que vieram acompanhadas por dois pedaços de pão. O maluco perguntou, num portunhol meio arranhado, se o pão que acompanhava o salgado era de graça ou se tinha que pagar. A moça disse que o pão era de graça, e ele brincou:

- Então eu só quero o pão. Ahahahahahahah!!!

Sobre as gargalhadas dos amigos ele pediu uma cerveja pra acompanhar o lanche.
José estava comendo e pensando no que iria fazer. Com os malucos elogiando a atitude dele, se sentiu diferente, com uma sensação de bem estar. Nunca foi tratado tão bem, tão elogiado quando praticou boas ações como está sendo tratado agora, por ter “supostamente” executado um policial. Em sua consciência sabia que não cometeu esse crime, que era incapaz de tirar a vida de outra pessoa e que não queria seguir adiante nesse caminho sombrio onde não se vê nenhuma luz no fim do túnel. Mas, por um momento se sentiu valorizado, sentiu conforto na companhia daqueles malucos, e já não sabia se queria esclarecer tudo.
Depois do lanche saíram andando até o Shopping Mercosul. Desceram as escadas até um auto serviço localizado no subsolo do prédio. A loja parecia um formigueiro de tanto cliente. Filas e filas de carrinhos lotados de brinquedos made in China esperavam a vez. A loja era uma fortaleza cheia de grades e câmeras por todos os lados. Ao lado do caixa tinha uma sala bem ampla com a porta de aço fechada com uma grade. Um chinês que estava no fundo da loja olhando para as mercadorias viu o Mano Gê e caminhou até lá. Ele era gordo e caminhava meio desajeitado.

- Salve China.

- Quem são eles?

- São família. Ta com nóis.

- Vamos entrar.

Ele digitou uns 30 números num aparelhinho que tinha na parede e a porta se abriu. Entraram na sala e a porta se trancou. A sala era bem ampla com ar condicionado e isolamento acústico com paredes duplas. Um aparelho de multimídia projetava na parede as imagens que vinha das câmeras espalhadas pela loja. Cada corredor tinha uma câmera, além de uma no caixa e outra do lado de fora da loja. Só não tinha câmera no banheiro dos funcionários. Em uma gaveta o chinês pegou uma pequena caixa e de dentro dela tirou um pacote transparente.

- Essa é a mercança nova? – perguntou Mano Gê.

- Pensa numa farinha boa!!! – disse o chinês, com um sotaque engraçado.

Ele esticou várias carreiras na mesa e enrolou uma nota de 100 dólares em forma de canudo. Meteu o nariz e passou o canudo pro próximo maluco e assim sucessivamente até chegar no José. Ele se recusou e os malucos não insistiram.

- E aí, aprovado? Hoje a noite vem o carregamento.

Os malucos consentiram.

Chegaram no estacionamento, o mano Pio e o outro maluco foram em um carro, José e o paraguaio foram no carro do Mano Gê.O paraguaio ligou o som. O aparelho era programado pra continuar a música da parte que parou quando foi desligado. O som que continuou rolando era rap, uma coletânea gravada independente por uns malucos de Foz do Iguaçu. A música do grupo Profecia da Fronteira pulsou forte nos alto falantes do carro do Mano Gê.

“Você não sabe como aqui a vida é maldita
Passar cota, 10 reais, humilhação a luz do dia
E os PF nem se fala, os vermes que da nojo
Os guardiões da ponte deixam a gente no sufoco
Vem tomar mercadoria, o sustento do outro dia
Tirou o pão da boca de uma mãe na correria
Tão ali trabalhando e são chamados de laranja
Melhor que ta roubando, já garantiu sua janta
E a de seus filhos que tanto a ajuda
Vendendo paçoquinha, catando latinha na rua
Mas parece que o governo não ta nem aí
Ô seu Paulo McDonald, para de dormir
Será que você não enxerga nada
Invista nas favelas e não lá nas Cataratas (...)”.

- Zé, vou te levar pra ver um loco.

Seguiram em direção a Hernandárias, conhecida pelos puteiros e plantações de maconha. Os carros entraram em uma estrada de terra que corta o matagal. O vidro aberto deixava entrar a poeira e o vento suave trazia uma calmaria típica de área rural. De vez em quando se via uma habitação, uma pequena casa de madeira onde morava uma família que criava porco e galinha e plantava mandioca. Umas meia hora depois, mata a dentro, já podiam avistar as plantações de maconha. “Sente o aroma Zé, isso aqui é tudo nosso”, disse o Mano Gê alegremente. Estacionaram o carro em uma pequena fazenda. Os cinco malucos caminharam até um galpão localizado na entrada do lote e José ficou pálido com o que viu. O Mano Branco vinha caminhando em sua direção.

(Lizal, na próxima edição mais um capítulo)