terça-feira, 6 de janeiro de 2009

PEQUENOS CONSUMISTAS (Por: Lizal).

Dia 23 de dezembro. Eu estava no terminal esperando o ônibus Cidade Nova e lendo um artigo do Jornal Le Monde Diplomatique Brasil. O texto intitulado Consumismo Infantil, de Yves De La Taille, mostra a relação infância/consumo e o impacto da publicidade na mente das crianças. Yves é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Já existe em Brasília um projeto de lei que visa coibir propagandas dirigidas ao público infantil. Entra em questionamento se as crianças, assim como os adultos, têm recursos intelectuais e afetivos para resistir a sedução publicitária. Segundo Yves “a criança carece, em parte, de critérios para avaliar se os brinquedos que ela vê, sabiamente fotografados ou filmados terão, na prática, as qualidades lúdicas apresentadas. Com freqüência, uma vez que tem o brinquedo nas mãos, ela fica desapontada e o abandona no baú dos objetos rejeitados ou esquecidos”.

No banco próximo do que eu estava, tinha uma garotinha sentada com uma senhora, que certamente era sua avó. Ela vestia uma roupa cor de rosa, laçinho no cabelo e sandália branca. Estava abraçada a uma boneca, um bebezão bem gordo vestindo roupa azul com bolinhas brancas. Quando apertava na barriga da boneca ela dava risada; apertava de novo e ela chorava; de novo e ela falava mamãe. Na mão da senhora que estava com a garotinha tinha um estojão de canetinhas e lápis de cor de 86 peças, desses que vendem no Paraguai. Ao lado, encostado no pilar, tinha um senhor abraçado a outra garotinha, que certamente era sua filha. A garota que estava com a boneca percebeu que a outra não parava de olhar e foi até lá, passou na frente dela e apertou a barriga da boneca, que deu risada. Depois abraçou a boneca e falou: “é meu”, voltando pra onde estava antes. A garota que estava com o pai vestia chinelo de dedo, calça jeans velha e uma camisa de um colégio particular com a frase: Sou feliz, sou Xodó. Certamente não estuda lá, e talvez, ganhou a roupa da patroa de sua mãe. Continuou olhando para a menina com a boneca. Essa tomou o estojo da mão da avó, foi até lá de novo e parou em frente a ela, mostrou o estojo, abraçou a boneca e falou num tom de zombaria: “é meu. É tudo meu”. Falou firme pra demonstrar posse e voltou a se sentar. A senhora não falou nada, só sorriu; achou engraçado. Eu não achei e voltei pra minha leitura.

O último parágrafo do texto ilustrou bem o que estava acontecendo ali naquele momento. “E de pouco adiantarão leis que coíbam a publicidade dirigida ao público infantil, se os próprios adultos, entregues ao consumismo e à cultura da vaidade, forem às compras, motivados e seduzidos pela imagem que seus filhos, destinatários dos presentes natalinos, terão diante de outras crianças”.

A menininha continuava seu exibicionismo. Acho que não por maldade, não consegui ver maldade nos olhos dela. No olhar da outra garotinha - quase hipnotizada - eu vi a face do desejo; do desejo de querer ter um presente igual o da outra. Nos olhos do pai da criança que olhou pra mim e pras pessoas em volta, abraçando forte sua filha, eu vi a vergonha, causada por aquela “pequena humilhação”.

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