domingo, 2 de agosto de 2009

As muitas faces de Foz do Iguaçu (Por: Danilo George e Eliseu Pirocelli)

Luk e as Raízes do Hip-Hop Iguaçuense



Luciano Antonio Zanella, mais conhecido como Luk tem 33 anos e é natural de Toledo-Pr. Veio pra Foz em 1979 e sempre morou na Vila C, região norte da cidade. Teve uma infância como as demais crianças de periferia da época e relembra isso com entusiasmo: “Minha infância foi muito bem vivida, no meu tempo era futebol, pipa, bulita, entendeu, não era igual hoje internet, televisão. Antigamente você vinha do colégio loco pra jogar uma bola, vinha pro campinho, você se divertia, chegava em casa e tomava um banho. Hoje não, chegou em casa é computador, internet, então o sedentarismo tomou conta. Eu agradeço muito a infância que eu tive porque a minha infância foi boa e vivida, não foi uma infância fechada na frente de uma tela”.

Ele estudou no colégio Anglo Americano na Vila C. Acredita que a Itaipu, no quesito educação, foi muito importante para o povo da Vila C, bancando colégio de qualidade na época para os filhos dos funcionários. E a questão da violência ele relembra: “A Itaipu fazia a segurança do bairro, com a PM piorou a segurança no bairro”. Mas ele vê a criação das vilas A, B e C, como um planejamento para a divisão social feita pela Itaipu. A vila B que é um condomínio fechado destinado aos engenheiros, a vila A de classe média e a Vila C onde fica os trabalhadores e que continua sendo uma vila operária e muitos moradores de hoje já habitavam essa vila na época da construção da barragem. “Só comparar as casas de cada bairro que você já vai saber”. Luk não critica as ocupações urbanas, muitas delas nas imediações da Vila C, pois sabe da necessidade de cada cidadão de ter seu lugar para morar. “Foi uma falta de planejamento. A Itaipu e a prefeitura podiam dar uma força pra esse pessoal pra não acontecer o que aconteceu de o pessoal chegar e tomar conta. A prefeitura falou muito de construir casa pra população e só ficou no papel”. Como todo morador de periferia, Luk já trabalhou em diversos lugares: em bares, no Paraguai, como segurança, em hotel, vendedor de gelinho, chapeiro e atualmente trabalha de recepcionista na Academia do Oeste Paraná Clube.

Começou seu envolvimento com o Hip-Hop em 1994. Estava participando de uma gincana com um grupo de jovens da Vila C e precisou escrever uma música falando sobre Preconceito. Fez a letra e passou para o grupo Garotos do Rap que fazia parte do grupo de sua gincana: “Antigamente o Brasil era uma beleza / ninguém reclamava, não havia tristeza / só tinha o que na época era normal / uma espécie de preconceito racial / onde o negro é conhecido como animal / um escravo da época comandado pelo 'maioral' / Mas, agora voltemos ao normal / a um Brasil diferente, mas onde o negro ainda leva pau / principal suspeito do crime, mesmo sem estar local / o negro sempre é o culpado por aquilo que não fez / mas foi acusado, por um cara tapado / que ainda não sabe que preconceito é coisa do passado...”. Cantou a música junto com o grupo e depois se tornou um integrante do mesmo. Tinha músicas próprias falando sobre preconceito e falando da realidade, política, cotidiano. O grupo fez uma turnê pela Rádio 97 FM passando por diversos bairros de Foz, Três Lagoas, Porto Meira, Vila C, Petrópolis, Floresta Clube na Vila A, Gramadão. Luk teve uma grande influência em Thaíde e Dj Hum. A primeira música de Rap que ouviu foi Corpo Fechado de Thaíde e Dj Hum, através de um amigo que veio de São Paulo e trouxe uma fita cassete. “Eu sinto saudade das músicas antigas. Porque o Thaíde no Corpo Fechado, o Pepeu em Nome de Meninas, são músicas que qualquer idade poderia chegar e escutar e gostar desse estilo. Hoje não, hoje já fala mais da realidade nua e crua, né, então não é qualquer adolescente que pode ta escutando. Porque muita gente se espelha no rap e muita gente se esconde no rap. Tem esse detalhe também. Hoje narra mais a violência, o tráfico, as mortes, né, tudo é retratado na letra de rap”, relembra com saudade. O grupo Garotos do Rap pegou a fase osso do rap em Foz, sem dj, sem toca-discos, muita dificuldade de conseguir uma base (instrumental) para cantar. Escrevia suas músicas, mas geralmente cantavam no beat box (a batida feita com a boca). Nunca tiveram equipamentos para ensaiar, mesa de som, microfone.

O Hip-Hop surgiu como um movimento negro, de afirmação e luta contra o racismo e preconceito. Vários grupos de Rap traz essa discussão em suas músicas questionando se a inserção de pessoas brancas no Rap não pode tirar dele esse caráter de movimento negro. O grupo Alternativa C gravou uma música de nome Porque a Cor Incomoda?, onde convidou rappers negros e brancos pra discutir sobre esse assunto. A rapper carioca Nega Gizza fez polêmica em um de seus refrões onde canta: “O rap não é perfeito / assumo o meu preconceito / é som de preto...”. Luk diz que já sofreu preconceito por ser branco e cantar Rap. Era o único branco do grupo. Em uma apresentação na Vila C quando desceu do palco um rapaz negro lhe disse: “Rap é coisa de negro”. Luk disse pra ele que o Rap não se define pela cor e sim pela atitude da pessoa. O rapaz insistiu em dizer que rap é de negro e ele disse: “Então o sangue que corre na minha veia é sangue de negro”.

Com 3 anos de grupo fizeram o jingle da campanha para o prefeito Hary Daijó. Na época Daijó estava construindo uma pista de skate na cidade buscando uma aproximação e um diálogo com a juventude. “Ele chamou mais visando o público mesmo. O Rap naquela época estava no auge, estava tocando nas rádios, Gabriel, Racionais. Ele pensou em fazer uma vinheta pra chamar a atenção do jovem, tanto que na Vila C ele teve o maior percentual de votos, pelo nosso conhecimento e pelo rap, eles se incentivaram pelo rap.”. Acredita que pra juventude de Foz o rap veio em boa hora, pois a juventude está se envolvendo na criminalidade e muitos jovens que conheceram o rap fizeram disso um estilo de vida, muitos sem o rap hoje estariam meio perdidos. Diz que o Rap incentiva as pessoas para seguirem em frente. Mas está preocupado com o rumo que o Rap Nacional tomou. “O Rap é pra você escutar, refletir e pensar, não é pra você se espelhar”. Diz que bater toda hora na tecla da polícia prejudica. Cita Facção Central. “Antigamente o Rap era mais bem visto pela sociedade por não falar muito de violência, de criminalidade. Hoje em dia muita gente pensa que quem canta e quem escuta rap é vagabundo”. Diz também que o Movimento na cidade já está instalado, bem mais divulgado, bem mais conhecido, e antigamente não se conseguia apoio, patrocínio, locais para expor sua arte, salão para a organização de eventos etc... Acredita que seu grupo foi importante e fez parte do movimento da cidade pela influência que causou em outros grupos. Conta a dificuldade que era pra conseguir um instrumental, antigamente não conseguia nenhuma base, tinha que improvisar encima da base que tinha. Sobre os outros elementos ele diz que naquela época já existia o break, a galera da Vila C já dançava nos shows.

No ano de 2003 para 2004 quando o grupo Racionais Mc's anunciou que gravaria um DVD, o público rap da época estranhou, porque na favela poucas pessoas tinham aparelho de DVD em casa e não tinham acesso a discos de DVD. Hoje o Hip-Hop ta no museu, no teatro, no You Tube, na Internet, nos Jornais, Revistas, Televisão e ocupando muitos espaços da mídia. Sobre a relação Rap e Mídia Luk pensa que “O Rap ta tendo a vez dele, ele ta tendo a oportunidade de mostrar pra todo mundo o que é periferia. Antigamente você vinha visitar Foz do Iguaçu e não vinha pra periferia, você ia pras Cataratas, ia pra Itaipu, ia pro centro da cidade, só da média pra alta, a periferia você não conhecia. Através da música o pessoal começou a conhecer um pouco também da periferia. Um clipe de Rap hoje, o que que mostra? Não mostra o centro da cidade, não mostra o ponto turístico, ele mostra a periferia, ele mostra a favela. Na favela todo mundo é feliz, não é porque é de periferia que não vai sorrir, não vai brincar, não vai se divertir. Então mostra pro Brasil e pro mundo que a felicidade não ta só na média e na alta, ta em qualquer lugar, né, basta você querer ser feliz”.

Incentivo à Cultura:

“Na minha opinião o incentivo é escasso, eles só mostram o que querem mostrar, não o que você quer que as pessoas vêem. Um exemplo é o Movimento Hip-Hop, se a gente não faz por nós mesmos ninguém vai fazer pela gente. Você vai na Fundação Cultural hoje: 'A gente queria um espaço pra um grupo de Dança de Rua, um ensaio de um Grupo de Rap'... 'Ah, mas não é assim que funciona'... Você nunca consegue o que você quer, só consegue o que eles querem que aconteça. Então o incentivo aqui é escasso, é cada um por si, você tem que se virar porque por eles você não pode depender não”. “Foz não tem incentivo nenhum pra população, ao invés de chamar o pessoal ta mandando o pessoal embora, a população não tem pra onde correr aqui em Foz. Então você não tem opção, você quer trabalhar, quer ter uma vida digna, trabalhar decentemente e você não consegue”. “Muita gente aqui depende do Paraguai, acredito que 80% depende de lá e não de Foz do Iguaçu. Então se analisa de que o Paraguai dá mais incentivo pro iguaçuense do que a própria cidade. Se você não tem um cargo público trabalha no Paraguai”.

Integração Latino Americana:

“Isso aí é a mais pura falsidade, isso aí é o Caô mais absurdo, MERCOSUL, cara. Só quem ta aqui sabe que MERCOSUL não existe, na minha opinião não existe. Tudo o que você vai fazer entre Brasil, Argentina e Paraguai você não consegue fazer. Por exemplo você não pode comprar nada do lado de lá que tenha aqui. Isso é MERCOSUL?”.

Esperança?

“Esperança eu tenho que as coisas mudem, mas por enquanto eu acho difícil, só tende a piorar. É o começo do caos. Aos poucos cada um vai perdendo o respeito por si mesmo e pelos outros, entendeu, e a união vai acabando”. (...) “Onde é que está os políticos honestos? Você não acha, quero ver você achar. Me fala um político que você se espelha. Eu prefiro me espelhar no Mano Brown, no Thaíde, que tem experiência de vida”.

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