quinta-feira, 21 de maio de 2009

Prato feito e tirado a limpo (Por: Régis Cardoso)

Então chega o dia do trabalhador. No boteco se discute política. No jornal a gripe suína. Em casa bebemos. Até em Londrina apareceu uma super bactéria. As coisas vão ao extremo em poucos segundos, é o poder da informação. Aparece um prato feito e você manda ver, está com fome não é? Às vezes não sabemos quem está ao nosso lado a se deliciar, lamber o prato. Parece que o desconhecido está com máscara. O prato está ali e uma solitária pede pra comer. Nenhum trabalho pra deixá-lo lambido. Acho que é melhor se deliciar com os últimos pratos feitos das nossas vidas. Logo seremos apenas seres contaminados que precisam ficar longe um do outro. Com aquelas máscaras que tapam a boca e o nariz. E o dia do trabalhador está aí. Perto das bactérias e vírus gripais. Pode crer que são os trabalhadores os primeiros nas filas dos prontos socorros e dos hospitais que atendem pelo SUS. Pode ser que a gripe suína apareça por aqui, já tem foco no Peru. “Gripe suína no Peru!”. Só mais uma manchete de jornal. Será que o mundo vai resistir a tanta diversidade bacteriológica. O certo é a indústria farmacêutica com muita grana em cima. Pode ler em qualquer matéria sobre gripe, vai ter o nome do remédio indicado. Acho isso bom, mas também deixa uma pulga atrás da orelha. “Será que já fizeram o problema com o remedinho pronto?”. A informação é cada dia mais vaga. Ela vem e nos atinge, mas na seqüência vem outra e atinge também, um bombardeio. Quando percebo já não sei de nada. Falam de gripe, falam de futebol, de tudo... Porém não entendo muito das leis trabalhistas. Alguém entende?

Um nobre amigo meu, que intitulo “Olho de Gato”, detetive renomado e que está por aí, de vez em quando me escreve cartas, me disse certa vez. “Numa revolta, a pior das hipóteses pra quem está no núcleo central da bagunça, é se a primeira porrada for mais forte e vier do lado oposto”. Achei uma merda esse ditado, ele disse como se fosse um sábio chinês, mas é só um lunático. Mas sabe que às vezes faz sentido isso tudo pra mim. Por mais insano que “Olho de Gato” fosse, acho que ainda é – faz tempo que não me escreve – esse ditado lembra um pouco a minha revolta do momento. É dia do trabalhador não? Parece que a porrada mais forte está vindo do lado oposto. Vão deixar pra amanhã comemorar a crise capitalista norte americana que afetou o mundo? Com as estruturas já formadas as porradas são mais fortes, porém vem sem que percebamos. Se o dia do trabalhador fosse algo sério por quem detém milhares de trabalhadores nas mãos, haveria uma espécie de aula sobre as leis trabalhistas, um manual prático pra saber dos direitos do trabalhador entregue pelo próprio patrão!

Hahaha... Aí sim seria o dia do trabalhador não? Ou ainda... na semana do trabalhador o patrão vira peão e o peão vira patrão. Vai dizer que nunca ouviu Bezerra da Silva cantar: “se deus desse asa a cobra / o mundo não estava perdido / a carroça andava na frente / e o burro ia atrás escondido” (acho que é mais ou menos isso...rs).
Pois é... O patrão teria seu tempo pra valorizar o trabalho também, num dia verdadeiramente do trabalhador. “Eu penduraria vários patrões em praça pública”, me disse um camarada de boteco. A diversão, no caso, estaria garantida pra quem odeia
seu patrão. Mesmo tendo quem ame os big mother fucker boss.

E então! Os trabalhadores permanecem por aí. Vejo que cada dia que passa é mais difícil ter certeza de um crescimento financeiro, ou mesmo de uma estabilidade monetária. Não há aumento de salário, mas sim uma pandemia de gripe suína. É essa a realidade. É como está escrito por aí: “vivemos num tempo em que o fim do mundo não assusta tanto quanto o fim do mês”. Então vamos comemorar o dia do trabalhador com medo. Os olhos em chamas ao saber que nesse feriado alguns puderam viajar pra qualquer lugar. Uns iriam pra Cancun, mas a gripe suína serviu pra cortar esse barato pelo menos. Olha só que conclusão inesperada. A gripe suína ao mesmo tempo em que ganha com a indústria farmacêutica, tira uma onda da cara de quem queria ir pra Cancun, no feriado do dia do trabalhador. Teria pratos e mais pratos a disposição da diversão oriunda de uma pandemia da estagnação trabalhista inevitável.

(Régis Cardoso é jornalista e colaborador do Megafone).

Fonte: www.megafone.inf.br

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