Pichação Política no Rio de Janeiro (Por: Eliseu Pirocelli)
Segundo a enciclopédia online Wikipédia, “Pichação é o ato de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edificações, asfalto de ruas ou monumentos, usando tinta em spray aerosol, dificilmente removível, estêncil ou mesmo rolo de tinta”. Geralmente, para o pichador a estética fica em segundo plano – o que o diferencia do grafiteiro – as pixações são feitas em uma cor só e não seguem um padrão artístico. A maioria das pichações que encontrei foram Tags. Sufocadas no meio dessas Tags aparecem diversas frases de contestação e de crítica ao governo e às questões sociais. “Abaixo a ditadura econômica”, “Liberdade para os presos políticos do Império”, “Paz é a gente que faz”, “Anule seu voto. Prefeitura corrupta”, “Israel transforma Gaza em campo de concentração nazista”, essas foram algumas das frases que encontrei durante minha busca.
No ano passado o assunto foi polêmica no Brasil inteiro através da mídia que veículou duas grandes ações de pichadores que resolveram “mecher na água parada do poço” e provocar a sociedade. A primeira foi a pichação que aconteceu na Faculdade de Belas Artes em São Paulo e depois na 28º Bienal, o que acarretou na prisão da jovem Caroline Pivetta da Mota. Segundo a Constituição Brasileira, a pichação é considerada vandalismo e crime ambiental nos termos do art. 65 da lei 9.605/98 (lei de crimes ambientais), que estipula pena de detenção de 3 meses a 1 ano e multa. Geralmente os juízes aplicam penas alternativas como prestação de serviços comunitários ou doação de cestas básicas. Não foi o caso de Caroline, ela ficou detida por 50 dias por pichar a bienal. A prisão da jovem provocou manifestações e foi colocada em contraste com a prisão do banqueiro Daniel Dantas que praticou crimes bem maiores e ficou detido por muito menos tempo. Uma das frases pichadas na Bienal foi: “Abaixo a Ditadura” que protestava contra a ditadura da arte. Segundo o pichador Cripta, entrevistado pela revista Cultura Hip-Hop, quem dita o que é, e o que não é arte no Brasil, é a burguesia. Ele protestou por um amigo que desenvolveu um Trabalho de Conclusão de Curso na Belas Artes defendendo a pichação como uma manifestação artística. No dia da defesa de seu trabalho convidou seus amigos pichadores para uma intervenção de pichação ao vivo na faculdade. Acabou reprovado e expulso da universidade.
A Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro também foi alvo das manifestações dos pichadores. Ali eu coletei diversas frases de protesto pela causa estudantil. “Fim do Vestibular. Universidade para todos”, “Sorria você está sendo vigiado”. Em uma parede tem um desenho bem simples, a sombra de um corpo estirado no chão com um buraco na cabeça, como se tivesse sido assassinado. Segue-se a frase: “Estudante negro”. Pelas ruas do Rio encontrei pichações defendendo diversas causas. Democratização da Comunicação: “A Globo mente. Leia mídia independente”. A questão de Gênero: “Mulheres em luta”. Vegetarianismo: “Animais são amigos, não comida”, “Comeis mais vegetais”. União Latina Americana: a imagem de Hugo Chaves seguida da frase “América Latina Integrada”. Em um muro gigantesco tomado por grafites e pichações estava a frase: “Mantenha a cidade ilustrada”. Na parede de um prédio de luxo: “A burguesia fede”. Próximo a um salão de festa da elite: “Haloween é o cacete!!! Viva a cultura nacional”.
Eu defendo a pichação como uma manifestação artística. E defendo as manifestações artísticas que tragam uma perspectiva libertadora, de mudança, de construção de uma nova sociedade. Músicas com conteúdo, bons livros, filmes que não sigam os padrões holiwoodianos, mídias independentes que critiquem o sistema de governo capitalista em que vivemos, fotografias que trazem reflexões. Por isso incentivo os pichadores a cada vez mais deixarem nas paredes suas frases que fazem as pessoas refletirem sobre a realidade em que vivem, que é de suma importância em tempos de barbárie como os de hoje. Os pichadores que viveram durante a ditadura militar no Brasil usaram seus sprays para denunciar aquele regime anti-democrático, violento, assassino, repressor, opressor, corrupto e autoritário. Hoje o Brasil vive uma falsa democracia e esse regime mata tanto quanto a ditadura.
Pichadores de todo o mundo,
Sprays às mãos,
Vamos à luta!!!
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