quinta-feira, 2 de abril de 2009

AS MUITAS FACES DE FOZ DO IGUAÇU

(Por: Danilo George e Eliseu Pirocelli)

JOÃO MALABARES E A TROUPE LUZ DA LUA



João Batista de Andrade, conhecido também como João Malabares tem 35 anos e é formado em Serviço Social. Nasceu no município de Ilha Solteira e veio pra Foz do Iguaçu junto com os pais quando tinha 3 anos de idade; hoje se considera um iguaçuense nativo. O pai é barrageiro, já trabalhava com barragem em Ilha Solteira e veio pra Foz para trabalhar na gigante Itaipu. Morou na Vila A, Cohapar, Libra e Centro. Cresceu junto com as outras crianças filhas de barrageiros e sua infância foi muito boa, sempre brincando, jogando futebol e bola de gude. Teve alguns privilégios por ser filho de barrageiro, pois a vila dispunha de clube, hospital e outras regalias dadas pela Itaipu aos funcionários que moravam na Vila A.

João Malabares se envolveu com o Circo há 4 anos atrás. Começou fazendo oficinas de perna de pau e depois conheceu uns viajantes malabaristas através da Casa do Teatro. Mais pra frente montou um grupo direcionado para o circo. João, Regis, Thiago e Valdirene fazem parte da Troupe Luz da Lua e desenvolvem a arte do Malabares, Palhaço, Equilíbrio e Acrobacia.



O nome “Luz da Lua” veio à tona por causa do horário em que eles ensaiavam. Como a galera não tinha tempo de ensaiar, estudavam até tarde, faziam faculdade, trabalhavam, começaram a praticar no período da noite. Os ensaios eram nas praças, de madrugada, à Luz da Lua. João acredita que os artistas de rua – que trabalham nos faróis - não ficam em Foz porque a galera não valoriza e assim eles não conseguem sobreviver da arte. Os bons artistas ficam um, dois dias na cidade, se decepcionam e partem pra outra. Disse que já trabalhou em Farol na cidade de Londrina e o reconhecimento é outro, o povo aceita mais tranqüilo a arte de rua. “Lá em Londrina se você for trabalhar umas 3 horas de farol você vai descolar uns 60 reais. É uma boa grana, a galera ajuda e tal. Aqui em Foz eu diria que o cara vai arrumar 20 reais, com esperança. Aqui é difícil”.

Apesar da triste realidade da fronteira, João traz uma visão otimista com o futuro dos artistas da cidade. A Troupe já se apresentou no Paraguai e acredita numa possibilidade de intercâmbio com os países vizinhos. “Em Foz tem um multiculturalismo gigantesco, se a gente pudesse ter esse contato com tudo isso, e outras pessoas também, é só pra aproveitar, né. Estudar sobre isso... isso é um meio de transformação, esse multiculturalismo”. Afirmou que em Foz pro artista crescer tem que querer, ter disposição, tem que buscar o respeito que a comunidade quer. Tem que ta lutando, ter organização no movimento, buscar recurso para formar agentes culturais. Tem que se profissionalizar.

A Troupe Luz da Lua já se apresentou em aniversários, casamentos, hotéis, praças, escolas, na rua, nos ônibus, no terminal, em hospitais. Já chegou até a ir no Domingão do Faustão, no programa Se Vira nos 30. Não faz distinção de locais para se apresentar, onde tenha o público interessado em receber aquela forma de arte, mesmo que seja somente uma pessoa, já acha satisfatório e realizador. João acredita que o artista tem que amadurecer, se articular, buscar recursos, realizar seu sonho e de repente protagonizar o sonho de outras crianças também: 'o sonho de ser artista'. “Porque muitas crianças querem ser artistas. Quem disse que ela quer ser carregadora de caixa de cigarro? quem disse que ela quer ser lavador de carro? quem disse que ela quer ser só vendedor de telefone celular? Não tenho nada contra nenhuma profissão, cara, ta entendendo? Mas eu acho que cada um poderia ter o direito de escolher o que gostaria de fazer”. E é com esse pensamento que a Troupe trabalha em diversos projetos sociais onde ensina a arte circense para crianças carentes.



Ele concorda que quem trabalha com arte no Brasil vive de forma muito precária e diz que a arte tem o poder de melhorar a vida das pessoas. “No meu ponto de vista, eu acho que essa cultura do entretenimento, da arte, ela só tem a trazer coisas boas para a sociedade. Porque naquele momento ela está se desvinculando de todos os seus problemas, de todas as suas contas, de todos os seus egoísmos, entendeu, pra poder ta participando de uma coisa que é pro bem. Mas a pessoa tem que aceitar isso. Ela vai ter que ta disposta a aceitar isso, pra ter esse entendimento”.

João não concorda que o circo está em queda. Sabe das dificuldades que é manter um circo grande hoje em dia. Existe uma lei de incentivo aos grandes grupos de circo e alguns grupos tradicionais resistiram. Os grandes grupos de circo diminuíram e surgiram grupos pequenos. Hoje 3 pessoas formam um grupo de circo, não precisa mais de 100 pessoas. “Eu não vejo uma queda na atividade circense, eu vejo uma reerguida na atividade circense com esses grupos que estão aprendendo técnicas de circo através de cursos e tal. Está muito mais aberto hoje, entendeu. É uma reerguida nova do circo chamado: 'Circo Novo'. É uma nova escola, os malabaristas de rua. Eles vêm e te dão uma aula de muitas técnicas no sinal e você vai embora”.

Ele diz que já passou o tempo dos circos usarem animais nas apresentações “Eu acredito que a nova tendência do circo mesmo é 'nós, os seres racionais' fazermos os números, tal, né. Existem muitas coisas amplas e os animais devem servir praquilo que eles vieram ao mundo, de natureza, não pra ta preso e ser judiado”.

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