segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Educação ou Camburão?


Nação Hip Hop Brasil promove a campanha "Educação ou Camburão?"
em diversas cidades do Estado de São Paulo.

Educação ou Camburão? Escolha a melhor alternativa para os jovens brasileiros. Para os descrentes, o Camburão seria o mais sensato, afinal como permitir um jovem roubar, assaltar e até matar? O Camburão e posteriormente anos de cadeia seria o castigo “merecido”. Porém para outros o melhor “remédio” para evitar essas atitudes é uma boa educação para a juventude brasileira. Pensando assim, a Nação Hip Hop Brasil/SP lançará uma campanha em todo o estado, intitulada, justamente com a pergunta, “Educação ou Camburão?”.

Oráculo, presidente da Nação, explica como surgiu a idéia da campanha: “A Nação existe há três anos, e nesse tempo percorremos muitas cidades, visitamos as periferias, conversamos com moradores, e infelizmente, uma coisa que todas têm em comum é a violência. O índice de homicídios cresce a cada dia, sem contar a violência contra a mulher, a violência social, de todas as formas e tipos, ela está presente no cotidiano dos jovens das periferias. A única forma de combater isso, imposta pelo sistema, é o Camburão, inibindo moradores, e muitas vezes, gerando ainda mais violência.”

Contrários a esse “método” adotado, a Nação Hip Hop Brasil/SP resolveu discutir essa questão com a juventude, as comunidades carentes, entidades, instituições e o poder público para conscientizar sobre a origem dos altos níveis de violência no Estado, visando formular, criar projetos de políticas públicas para aprimorar e minimizar essa questão. Para Oráculo, a educação
e o trabalho precisa ser o “senso
comum” das quebradas, e não a violência, o camburão e a prisão.

“Educação ou Camburão?” percorrerá mais de vinte cidades, o tema violência será amplamente discutido. “Em cada cidade, vamos promover além dos debates, atividades culturais, para reafirmar que há sim, outras maneiras de combater a violência, e a cultura é uma delas”.
Além de debater o assunto nas comunidades carentes, onde a violência prevalece, esse debate também será levado para dentro de instituições de ensino como escolas e universidades, Segundo Oráculo, já está no cronograma, a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do ABC (UFABC), Centro Universitário Metropolitano de São Paulo (Unifig) em Guarulhos e Universidade Católica de Santos (Unisantos).

Para o encerramento da campanha, em novembro, será realizado uma audiência pública com o Secretário Estadual de Segurança Pública e Educação, as demais autoridades governamentais, os movimentos sociais e as entidades parceiras para apresentação do documentário da campanha e documento com as propostas apresentadas nos debates.
“Educação ou Camburão” é uma campanha organizada pela Nação Hip Hop Brasil do estado de São Paulo com o apoio da União Estadual dos Estudantes (UEE/SP), União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), CUCA da União Nacional dos Estudantes (UNE), Centro de Formação Brasil Jovem, Sindicato dos Correios da cidade de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing (Sintratel) da capital paulista, Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo e Instituto Cidadania Democrática.

A campanha passará pelas seguintes cidades: São Paulo, Guarulhos, Santo André, Santos, Campinas, Osasco, Ribeirão Preto, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Araraquara, Sorocaba, Rio Claro, Marília, Hortolândia, Ribeirão Pires,
Francisco Morato, Suzano, Itapevi, São Carlos, Piracicaba, Jundiaí, Mogi das
Cruzes, São Bernardo do Campo, Poá, Diadema e Barueri.

Fonte: Site da Nação Hip-Hop Brasil
Acesse e fique bem informado:
www.nacaohiphopbrasil.com.br

NOSSAS ESCOLHAS (Por Luiz Henrique Dias da Silva)

Eu estava sentado num banco, na pista de caminhada da Avenida Paraná, quando observei um casal de papagaios. “Gritavam” no alto de uma lindíssima árvore que há por ali. Disseram-me, certa vez, que o casal voa sempre junto. Era uma cena bonita. Esclarecedora. Um dava ao outro a maior prova de amor que existe: a companhia. Pensei como aquilo poderia mudar a vida de todos que por ali passavam. Imaginem: Você andando na rua, triste e desconsolado, quando observa duas aves felizes e apaixonadas. A natureza certamente conspiraria para melhorar seus pensamentos. Resolvi observar qual seria a reação das pessoas ao observar tal cena. Será que iriam sorrir? Ou será que iriam parar para mostrar para outros pedestres? Será que os carros e os ônibus parariam (e perderiam um minuto de seu dia) para que os passageiros pudessem também desfrutar daquele momento único em nossa cidade? Talvez, as pessoas tirariam fotos com seus modernos celulares? Olhei a minha volta, para “estudar” o ser humano e suas reações. Ninguém viu nada. Ninguém olhou para o casal de aves. Todos que passavam olhavam apenas para o novo Shopping, que ficava do lado de lá da rua. Os carros reduziam a velocidade. Os passantes paravam. Os passageiros do transporte coletivo esticavam o pescoço. O casal de papagaio perdeu a cena. Saíram voando e foram se mostrar em outro lugar. E eu levantei e fui embora também.

(Luiz Henrique é escritor, dramaturgo, poeta e estudante de arquitetura em Foz).
Fonte: Zine A Vida Gira nº 02, Agosto de 2008.
Acessem: www.avidagira.blogspot.com

O GRITO DO LOBISOMEM

O GRITO DO LOBISOMEM
(Por: Wemerson Augusto)

Na cidade encantada o bicho da cara preta voltou a assombrar e desfilar pelas vias públicas e áreas rurais. Conforme o arquivo coletivo, a primeira aparição do lobisomem na província completou vinte anos. Foi em um banheiro feminino, na invenção de praia popular da localidade. Desdentado, descabelado, bruto, sujo, mal cheiroso, seboso e maldoso. Foram esses os sentidos dados pelos transeuntes desde a primeira vez que viram a apavorante criatura do pé virado e dos chifres cascudo.
As definições e formas para referir-se a assombrosa espécie multiplicavam dia-a-dia. Semelhante a velocidade das notas era a movimentação dos promotores do espetáculo na atrativa paragem.

Os humildes cidadãos que não tiveram a oportunidade ou desprazer de ficar cara a cara com o bicho tinham a sensação que o mundo estava tomado por seres esquisitos. As falácias davam a todo o momento informações de novas aparições e estereótipo do bicho. A guarnição policial foi acionada a prestar esclarecimentos. Nos boletins de ocorrência, mortes misteriosas de galinhas e galos em dois terreiros da cidade. Os finados não aparentavam marcas de maus tratos.
Ao lado de uma das ocorrências, um senhor que estava sentado em cima de uma lata de tinta enferrujada tentava explicar o fato. Inicialmente os homens fardados deram atenção ao depoimento do senhor de bigode falhado e dos cabelos grisalhos, que repetia o refrão: “É a crise. Antigamente, todo dia nessa esquina tinha galinha preta e mé pra gente tomá. Agora o capeta tem que vim busca ué”. O bafo do álcool, o forte cheiro do tabaco e a fala tremida colocaram a experiência do ancião em segundo plano. Mesmo desacreditado e ignorado, o senhor conhecido na vizinhança continuava a olhar fundo e pensativo o cenário que se desenhava no vilarejo. Um casal vizinho do idoso - colecionador de copos de aguardente - amedrontado com os episódios, literalmente foi vencido pelo medo. Tenebrosos com uma possível visita da criatura prepararam antecipadamente as malas e caíram no mundo.
Deixaram para trás a criação e o casebre com as portas abertas. Na vigilância do lar, ficou meia dúzia de pardais, fuçando entre as frestas do assoalho as migalhas do almoço. Nas paredes, retratos e panelas ficaram de registro de um dos moradores mais antigos do povoado distante.

O fim do mundo estava chegando para os moradores da comunidade. O povoado de poucas famílias passou a ser atração para dezenas de pessoas. Principalmente depois do retrato falado do bicho no diário e na telinha.
Os curiosos destroçavam milharais e mandiocais. As hortas pisoteadas não davam mais nada. As cercas cortadas não empunhavam mais restrições aos animais do pasto. O excesso era motivado pela ansiedade e curiosidade das pessoas, que gerava mais descontrole, confusão e medo.

Atrás dos caça fantasmas, uma única equipe de televisão da província. Do rastro das pessoas, a equipe simulava a presença das criaturas naquele devido local. De punho de câmeras e anotações os investigadores traçavam novas possibilidades.
Na narrativa televisionada com fundo tenebroso, a sensação era de que o lobisomem iria ser capturado dentro de poucas horas. Enquadrado como um ladrão de bujão de gás, a produção insistia em trazer a todo instante, novas revelações do paradeiro e estrago causado pelo animalesco.

Certamente chateado com as retratações fraudulentas feitas ao seu mensageiro legal, o capeta prometeu nunca mais enviar seu representante. Segundo consta, o lobisomem abriu o jogo quando foi prestar contas lá no trono com o velhote maldoso, e disse que não tem nenhuma relação com os crimes que ocorrem na província. Para tristeza do pessoal da bilheteria e das estatísticas, o
lobisomem não grita mais nas noites de lua minguante, cheia, nova ou crescente. Fontes infernais disseram com segurança: “De lá não vem mais ninguém”. Enquanto isso, as estatísticas desfavoráveis e a ineficiência dos serviços oferecidos aos vilarejos da província assustam os responsáveis que buscam a todo custo montar um novo picadeiro.

Wemerson Augusto é jornalista em Foz do Iguaçu. Participa do projeto Megafone, de comunicação cidadã.

Fonte:

Revista Escrita n° 4.

ELICÍ (Por Ferréz e Edvaldo Quirino)

Ele se levanta e toma um copo de café preto como a sua pele.
Elicí sim é criança cedo, e a precocidade na infância interfere.
Tem a vida tão corrida.
Trabalha seis dias por semana.
Entrega roupas de pessoas bacanas. No final do dia paga as bebidas que o pai toma.
Se senta sempre sob a copa da grande árvore após o almoço.

Elicí ainda hoje eu ouço. O galo já cantou e o relógio despertou. Levanta e vai encarar a mais pura realidade.

Naquela manhã a mãe lhe disse:
“Filho, vai com Deus”.
Ele voltou, pegou sua mão e a beijou, pediu bênção e partiu.
Entrou no ônibus, encarou o cobrador, disse bom dia, sem resposta. Desceu no paraíso (o paraíso dos ricos), Pegou o metrô, desceu na Marechal, subiu a Angélica correndo. A menina olhou, mas ele não podia parar.
Chegou um pouco atrasado, quando a patroa lhe olhava se sentia escravo. De manhã havia muita entrega, e era sempre assim.

Quanto melhor para a patroa, pior para Elicí. Sempre agradeceu pelo pagamento.
Entregava em casa de bacana e de prostituta. Quando tinha entrega na casa de madame, algumas atendiam seminuas.
Perua exibicionista que lhe dava gorjeta e sorriso falso.
Um dia, um executivo parou o carro, lhe ofereceu dinheiro, Elicí mostrou o dedo. Era meio-dia e a fome
estava chegando. Almoçou rapidamente em vinte minutos, tinha quarenta para descansar.

Na grande árvore, Elicí foi se sentar. Elicí e o helicóptero levanta vôo. Fecha os olhos, e começa a viajar.
Talvez um tratamento para o pai, uma bicicleta para o irmão.Talvez tirar a mãe do sufoco, melhorar a casa. Aquele beijo quente,
Elicí com os olhos fechados não vê o pesadelo dobrar a esquina. Um carro importado, vermelho, um casal bem-nascido se tocando.
Tanto afeto, tanta bolinação que esquece adireção. Elicí ouve as folhas da árvore e o grito estridente dos pneus no asfalto.
Ouve o estrondo. A notícia vai correr no jornal.
“Menino negro morre prensado ao tronco.”

A história se repete. O resgate é acionado, socorro de gente rica é mais rápido e vem pelo alto. O helicóptero na pista, os curiosos aplaudem. Médicos, bombeiros, polícia e até voluntário. Socorreram o casal endinheirado.
O helicóptero decola, e agora já era.
O menino tá morto mesmo, e morto espera.
Elicí e o helicóptero levanta vôo. Elicí ainda hoje eu ouço.

(Ferréz e Edvaldo Quirino)
Fonte: www.ferrez.blogspot.com

BRINCAR DE ESCONDER...

Uma noite de chuva tímida (Por Carol)

O riso esconde a tristeza nos olhos.
A água lava as lágrimas que escorrem no rosto.
O silêncio esconde a angústia da alma.
O tempo tenta curar as mazelas do coração.
As palavras escondem, mudam, confundem pensamentos.
A fé ampara o medo do desconhecido e do imprevisto.
A camomila suaviza a tensão dos nervos.
A boca alimenta o corpo que corre.
Os pés calçam os sapatos em pernas que descansarão mais tarde em suas camas.
A água lava a lágrima que escorreu dos olhos para o travesseiro.
O ar entra em nossas narinas e nos garante a vida.


O celular toca música tira foto filma come farinha e assobia ao mesmo tempo.
A máquina lava a roupa seca dobra e guarda nas gavetas.
A televisão nos ensina a engolir.
O Gugu e o Faustão nos ensinam a não falar.
A Xuxa nos ensina como não cantar.
A Ana Maria nos ensina a cozinhar.
O rádio nos ensina não ouvir música.
E a revista? Como não ler.


Ghandi prega que devemos ter paciência e não ter apego aos bens materiais.
Jesus Cristo nos ensinou a ter humildade e simplicidade.
Guevara nos mostrou que temos força para lutar.
Minha avó me ensinou a ouvir suas histórias e a persistir nos meus objetivos.
Minha mãe me ensinou a acreditar em mim e nos outros.

Podemos fazer escolhas, ter ou não um sentido, ser ou não o que quisermos...

Basta acreditar e correr atrás!

(Carol é estudante de letras em Foz do Iguaçu)

NOVELA DA VIDA REAL

Mais um Cidadão José. Cap. 29

- Só mais 15 dias e vamos poder trabalhar em paz.

Após falar, Mano Gê pegou sua PT, colocou na cinta e saiu pra fora da casa. O chinês estava falando no celular e ninguém entendia nada do idioma. Certamente estava falando com alguém da máfia chinesa, que estava se envolvendo no tráfico de drogas. Com o enfraquecimento do comércio no Paraguai, os mafiosos migraram para o narcotráfico. Chineses, coreanos, árabes, libaneses estão dando assessoria para esses malucos que visam dominar todo o comércio de ilícitos nessa região. Colômbia, Bolívia, Paraguai, Argentina, Chile e diversos outros países da América Latina interligados na rota do tráfico e do crime.
Os malucos saíram e reuniram-se do lado de fora do barraco. Todos já tinham aberto seus envelopes e estavam vendo as fotos e os dados da pessoa que teriam de matar. José estava com seu envelope na mão e ainda não havia mexido nele. Sua mente tava a milhão, precisava pensar rápido. Nunca imaginou ter que matar ninguém, ainda mais uma pessoa que ele nem conhece, que nunca fez nada pra ele. Lembrou de um documentário que assistiu na casa do Mano Nego. Conta a história de uma tribo indígena da Amazônia que, por causa de uma briga, dividiu-se e começaram a se matar entre si. Usavam lanças e atacavam na madrugada, ferindo de morte os inimigos. A tribo foi quase totalmente dizimada durante anos e anos de matança. Um dos índios que sobreviveu conheceu um missionário que levou-o para visitar os EUA. Em solo estadunidense, esse índio assistiu a um filme da segunda guerra mundial e se assombrou. Ao ver os aviões jogando bombas ele indagou: “Como os homens brancos conseguem matar pessoas que nem conhecem”.
Um maluco que estava ao lado de José, após analisar o envelope, deu uma risada cabulosa e falou gritando:

- Ahahahahha. Um gambé. Esse é meu, ahahahahah. Duas mil lascas a mais pro maluco aqui. A favela agradece. Aahahhaha.

Na seqüência tirou um revólver e deu dois tiros pra cima. Olhou pro José e perguntou:

- Não vai abrir o bagulho, Zé?

- To abrindo já.

Meio desajeitado José abriu seu envelope e se assustou quando leu: Soldado Farias. José teria de matar um policial. Foi tirando os papéis do envelope. Tinha fotos do gambé, de farda, com a família, num restaurante, com os amigos. O maluco que estava do lado esticou e pescoço e falou em voz alta:

- Carái Zé. Cê também pegou um gambé. Mas nóis tem sorte mesmo hein tio. Vamo jogar na mega sena. Ahahahahah.

José não deu bola, estava com cara de poucos amigos. Um maluco que era conhecido como poeta estava rabiscando algo num pedacinho de papel. O Chinês estava ao lado do mano Gê, que dechavava uma erva pra bolar um baseado. Todos os manos estavam fora da casa. A noite vinha chegando e dois rapazes saíram para comprar vinho em um barzinho próximo dali. Fizeram uma vaquinha com os malucos que queriam tomar um gole. Um nome martelava na cabeça de José: Soldado Farias. José sempre teve muita raiva de polícia e várias vezes aprovou a atitude dos malandro da quebrada que madaram bala na viatura. Mas agora, vendo a foto do gambé com a família, percebeu que se consumar o ato, vai destruir uma família e deixar uma filha sem pai. Igual nos desenhos animados, um capetinha soprou no seu ouvido: “e o tanto de famílias que eles já destruíram?”. Antes do anjo falar algo em seu ouvido, os malucos interrompem, servindo-lhe um copo de vinho. O poeta tomou um gole de vinho, se encorajou e tirou do bolso o papel onde ele havia escrito algo. Leu em voz alta uma poesia de cordel que acabara de criar:

Se o cara é maluco e é firmezão
Não erra o tiro, não atira no pé
Com mais emoção se o ganso é gambé
2 mil de gorjeta pro bolso do drão
Pra mim é mil grau, é satisfação
Zerar esses loke, depois dominar
Abrir o caminho pros manos trampar
Depois vou curtir, cair na gandaia
Em Camboriú de férias na praia
Com muito dinheiro pra poder gastar

Os malucos bateram palmas enquanto davam risadas. José também riu, só que não achou graça. Queria sair logo dali, arrumar suas coisas e ir embora. “Detenção sem muro / quero fugir daqui, fugir daqui...” cantava a música de Facção Central que tocava baixinho no carro do Mano Gê. Mas, ainda tinha uma noite de trabalho pela frente. Era o último dia de trampo, só voltarão depois de 15 dias. Os malucos guardaram no bolso o dinheiro que estava dentro do envelope. Alguns colocaram os envelopes dentro da mochila, outros deixaram ali na mesa para pegar depois do trampo.
Desceram pra barranca 11:30 da noite. Para José a noite seria longa. Sua mente só pensava em sair fora dali o mais rápido possível. Pensava no seu truta, Mano Branco e na covardia que fizeram com ele. Pensava no seu filho, o Neguinho, não sabia se daria tempo de buscá-lo, ou se a Preta deixaria José levar ele. Não sabia se a Preta aceitaria ir junto. Deixou as caixas caírem diversas vezes. O chão parecia estar mais liso e as caixas mais pesadas. O caminho parecia mais longo e os companheiros de trabalho mais alegres e mais falantes. José ensaiava um sorriso quando contavam algo engraçado pra ele, mas logo fechava a cara. Dezenas de carros e motos visitaram a quebrada naquela noite. O Mano Pio chegou num carro com três malucos, e ficaram trocando idéia com o Mano Gê durante uns40 minutos. Ele passou pra um dos malucos a chave do carro do Mano Branco e o maluco colocou umas caixas no porta-malas e saiu em alta velocidade.

José saiu do trampo as 4:30 hs da madruga. Dessa vez não tinha com quem pegar uma carona. Subiu a pé a caminho de um ponto de ônibus. Olhou para trás e viu uma viatura vindo em sua direção. Não se preocupou, estava desarmado. O revólver que ele ganhou de presa estava em casa. Não usou uma única vez. Estava despreocupado, quem não deve não teme. Era só bolar uma história pra dizer de onde está vindo. Mas, José ainda estava próximo do trampo e os gambé certamente farão pressão. A viatura chegava devagar, silenciosamente. De repente José lembra do envelope que ele carrega dentro de uma sacolinha que contém os dados do policial. Se assombrou e olhou pra trás, pra ver se dá tempo de dispensar o fragrante. Os gambé perceberam o nervosismo e aceleraram. E agora José? Como explicaria isso ali? E os três mil reais na carteira? Certamente será levado preso, ou coisa pior. O vento frio soprava, uma neblina cobria uma parte da estrada, o dia ameaçava clarear. Era quase 5 da manhã, as ruas ainda estavam vazias. O coração de José começou a bater mais forte, ainda mais quando a viatura estava ao seu lado, agora andando devagarinho e um gambé olhando pra ele. Não olhou pro lado, ignorou, fez de conta que não percebeu. A viatura cantou o pneu, acelerou e encostou em sua frente, obstruindo sua passagem.
José olhou pro gambé que estava na boléia. Achou-o familiar. Já havia visto aquele rosto em algum lugar. Seria impossível lembrar-se de todos os enquadros que já levou, para descobrir se já foi abordado antes por aqueles policiais.

Fixou o olhar no gambé e levou um susto. Leu na farda do pé-de-porco: Soldado Farias.

(Lizal. Na próxima edição mais um capítilo)

STRAIGHT EDGE, ATITUDE / ESTILO DE VIDA.


O Straight Edge surgiu aproximadamente em 1980, entre a cena punk de Washington D.C., a capital dos EUA. Os membros de uma banda chamada Teen Idles, todos menores de idade, odiavam o fato de que, por causa do consumo de álcool, quem ainda não tinha 18 anos não podia freqüentar a maioria dos shows punks da cidade. E o pior de tudo, eles nem mesmo queriam beber. Ao contrário da esmagadora maioria dos punks da época, os Teen Idles não achavam que a atitude niilista e auto-destrutiva associada ao consumo de álcool e drogas eram uma obrigação do movimento. Ao mesmo tempo em que as drogas e o álcool eram exaltados no punk da época, para os Teen Idles, seu abuso só trazia coisas ruins ao movimento: menores de idade eram excluídos dos shows pois as casas vendiam álcool; bêbados sempre causavam brigas; membros talentosos e inteligentes de bandas morriam ou se tornavam zumbis apáticos de tanto se drogar, e por aí vai. Para eles, parte da atitude "faça você mesmo" do punk envolvia o indivíduo ter pleno controle de seu corpo, mente e atitudes, e para isso as drogas eram um obstáculo. Então, em torno da banda, toda uma turma de jovens punks foi se formando, e algo como um "mini-culto" foi surgindo. O “X”, adotado como símbolo universal do Straight Edge, tem a seguinte origem: os Teen Idles, em 1980, fizeram uma viagem à Califórnia, onde tocaram dois shows (em Los Angeles e São Francisco) e ganharam no total, a fortuna de 45 dólares (hehehe, punk é isso aí). Em São Francisco, a casa onde eles tocaram, tinha a política de deixar menores de idade entrar desde que eles tivessem suas mãos marcadas por um “X” de pincel atômico. Desta forma, o barman saberia quem poderia e quem não poderia comprar bebidas alcoólicas. Os Teen Idles acharam a idéia engraçada (e útil, pois dessa forma todos poderiam ver o show) e levaram ela de volta a Washington. Lá, sugeriram aos donos de casas noturnas que fosse feito o mesmo, para que os menores pudessem entrar. Mas, como ironia, demonstrando que não só não podiam, como tampouco queriam beber, muita gente começou a fazer o X espontaneamente, e mesmo quem era maior de 18 continuou usando, tanto para expor sua postura, quanto para demonstrar solidariedade aos menores. Com o tempo, o X acabou por se tornar o símbolo do Straight Edge, indo parar em nomes e logotipos de bandas, camisetas, tatuagens, etc...
Straight Edge= - nada de álcool, nada de tabaco e renuncia de quaisquer outras drogas; nada de promiscuidade (= sexo com mudança freqüente de parceiros).

SIGNIFICADO DO TERMO “STRAIGHT EDGE”:
Um belo dia, a banda estava fazendo o layout da capa de seu primeiro (e único) disco, o compacto "Minor Disturbance", e o baterista Jeff Nelson pegou um esquadro (aquela régua em forma de triângulo) e, meio brincando, comparou a retitude e os ângulos retos do objeto com sua postura firme e "careta" de vida. Esquadro em inglês é "straight edge", e dessa maneira, Nelson adotada pelos Straight Edgers, não uma parte do Straight Edge em si. O vegetaria-
nismo é uma idéia bastante discutida dentro do punk/hardcore, por diversas bandas, sXe ou não. Ian Mckaye, vocalista do Minor Threat, é vegetariano desde o início dos anos 80, mas nunca abordou isso em suas músicas, ainda que fale sobre o assunto em entrevistas. Bandas punks/HC como Crass, Conflict, Antidote, MDC, Oi Polloi, Cro-Mags e muitas outras, já se manifestavam de alguma forma contra a matança de animais, antes da primeira banda sXe tocar no assunto. Portanto, é mais coerente falar do vegetarianismo como uma causa comum a todo o lado mais politizado, ou idealista do hardcore/punk, não apenas ao sXe. É importante deixar claro que dentro da cena punk/hardcore/straightedge, o vegetarianismo sempre teve como motivo principal a ética. Apesar dos benefícios à saúde, o estilo de vida vegetariano sempre foi adotado e difundido em nome do bem estar dos animais, do meio ambiente e da economia. Apesar da enorme popularidade do vegetarianismo dentro do Straight Edge, a causa dos direitos dos animais é para qualquer pessoa, independente do gosto musical, idade, corte de cabelo, se bebe ou fuma, etc... O vegetarianismo é uma questão de consciência, não uma "obrigação" para quem quer ser sXe. Um adepto do Straight Edge não tem mais obrigação de ser vegetariano do que qualquer outra pessoa com algum conhecimento do assunto.

Veganismo é o nome dado à postura, adotada por muitos Straight Edgers (mas não apenas por eles), de não consumir produtos de origem animal, seja carne, couro, leite, ovos, gelatina. Os vegans acreditam que esta é a postura mais coerente para quem segue o vegetarianismo por motivos éticos, já que todos os alimentos e produtos de origem animal causam sofrimento aos bichos, danificam o meio-ambiente, e podem ser substituídos por alternativas vegetais ou sintéticas. A letra da música "4 More Reasons", da banda Straight Edge belga Nations On Fire é uma das melhores letras sobre o assunto e sintetiza bem a questão:

MAIS QUATRO RAZÕES (four more reasons - 1992)

Tenho pensado sobre o que nós dizíamos / Sobre a ignorância com a qual costumávamos pregar o vegetarianismo / Mas conforme os anos se passaram, sempre procurando mais respostas / Minha sede por conhecimento nunca secou / Analisando a indústria da carne / Como ela irá destruir nosso meio-ambiente em poucos anos / É a segunda maior ameaça à nossa terra / Logo após um desastre nuclear - isso ninguém nunca ouviu! / Quando a carne é vermelha - 4 mais razões para se preocupar / Descubra onde está o perigo / Razões políticas, econômicas, éticas e de saúde / (políticas) Explorando países do terceiro mundo pela nossa carne / O lobby da carne é poderoso para cacete! / E controla nossas mentes, controla nossas escolas / (Econômicas) Alimentamos nosso gado com a comida / que poderia alimentar populações inteiras / Estamos poluindo nosso mundo em nome dos lucros feitos por algumas poucas corporações / (Éticas) Nosso desrespeito pelos animais prova nosso desrespeito pelas pessoas: / especismo e sexismo são uma coisa só / (Saúde) E no fim estamos destruindo nossa própria saúde / Nosso corpo está fora de equilíbrio / Eu digo, dane-se sua riqueza! / Quando a carne é vermelha - 4 mais razões para se preocupar / Experimente toda a comida saudável que puder / Nós o fizemos e não nos arrependemos / não nos arrependemos! / Quando a carne é vermelha, é a morte de uma criatura inocente.

RELAÇÃO DOS STRAIGHT EDGE COM A POLÍTICA:
A relação entre o sXe e a política é basicamente a mesma que ocorre no resto do punk rock. Uma postura libertária e crítica ao status quo e aos valores da sociedade está quase sempre presente, e quando bandas ou pessoas assumem uma posição mais definida ou militante, é quase sempre nos quadros do socialismo ou anarquismo. O que acontece também é que a mentalidade de cada lugar se reflete no sXe, e isso diz respeito tanto aos costumes do país, quanto às tradições da cena punk local. Por exemplo, no Brasil, o cenário Straight Edge tem a tradição de ser mais politizado do que na maioria dos outros países, em especial os EUA. Isso talvez se dê pelo fato de que toda a cena punk no brasil sempre foi mais politizada que a dos EUA, além do fato de que por aqui as contradições sociais são mais evidentes.

COMO O STRAIGHT EDGE VÊ A RELIGIÃO:

Ao contrário do que muita gente acredita, a grande maioria dos Straight Edgers é ateísta ou agnóstica e não aprova a associação da religião com o hardcore. No entanto, há algumas pessoas que associam a postura sXe com suas crenças espirituais, especialmente no caso da religião Hare Krsna (seita hinduísta popularizada no ocidente a partir dos anos 60). Mas como foi que isso aconteceu? Bem, tudo começou com membros de algumas bandas hardcore de Nova York do início dos anos 80 como Antidote e Cause For Alarm, que eram ligados ao "movimento hare krsna", e tentavam associa-lo ao punk, por verem pontos em comum como o vegetarianismo e o "anti-materialismo".

Dessa mesma turma veio uma banda chamada Cro-Mags, cujo vocalista John "Bloodclot" Joseph era devoto de Krsna e expunha alguns pontos de vista espirituais nas letras da banda. Os Cro-Mags se tornaram uma das bandas hardcore mais populares de todos os tempos, e talvez por isso, o hare krsna tenha se tornado algo relativamente familiar na cena de Nova York.

(Informações cedidas por Velo - Banda Socialmente Incorreto - Foz do iguaçu).

SHOPPING DE CURITIBA BARRA JOVENS DE PERIFERIA.

SHOPPING DE CURITIBA BARRA JOVENS DE PERIFERIA.

O Shopping Palladium é o maior da capital paranaense e foi construído na zona sul, onde se concentra diversos bairros periféricos e uma enorme população. Foi inaugurado há pouco mais de um mês e atraiu centenas de pessoas. O shopping ganhou os noticiários após barrar a entrada de jovens que estavam vestidos com roupas de Hip-Hop. A proibição gerou protesto em frente ao shopping e fomentou um debate entre os jovens curitibanos.

Os dirigentes do Palladium alegaram que não estão praticando discriminação, só estão evitando um possível constrangimento dos clientes; e disse também que o acesso só seria barrado para grupos com mais de quatro jovens. Alegaram que os jovens entram no shopping tomando tubão (Refri com pinga) e que mexem com as pessoas usando palavreado ofensivo. Os seguranças alegaram receber ordens para barrar jovens que se identificam com a periferia para evitar transtornos com a clientela e possíveis arrastões. Os manos que tentavam entrar sozinhos no shopping também eram barrados, pois os dirigentes temiam que os manos se reunissem lá dentro.

Lideranças do Movimento Hip-Hop Curitibano organizaram um show de Rap em frente ao Palladium para protestar contra a atitude, que julgam ser um ato de segregação social. (Ver cartaz).

O VIDALOKASOMEM ATACA NOVAMENTE (Por Lizal)

Depois que os manos do Hip-Hop foram tizorados de entrar num shopping
em Curitiba, resolvi escrever mais um capítulo da minha história de terror. Aí vai:

Conta a lenda urbana, que toda noite de lua cheia após a meia noite, num lugar afastado do centro da cidade, nasce o temível, o terrível, o cruel, o assustador e atemorizante Vidalokasomem. Ele sai pelas ruas da cidade assustando os playboys para vingar anos e anos de exploração e genocídio de seu povo.

No último capítulo, o nosso herói encontra-se com uma mina que também tinha sofrido a mutação. Eles fogem, após adentrar uma mansão e assustar os playboys. Desviando-se dos tiros efetuados pelos seguranças conseguem escapar. Apaixonam-se, se casam e são felizes para sempre, com o currículo cheio de sustos e o barraco cheio de vidalokasominhos.

Mas, até o “para sempre” chegar, teve muito chão. Vamos à história.

Fábio estacionou seu Audi TT Turbo em frente o Shopping que inaugurara há pouco mais de um mês. A esposa e os dois filhos desceram e se despediram. Fábio disse que assim que terminar a reunião com os sócios da empresa, voltará para buscá-los. Dirigiu por uns 15 minutos e estacionou em frente a um prédio. Subiu de elevador até o sexto andar e bateu na porta.

- Achei que você não vinha mais. disse o rapaz que abriu a porta.

- Tive que levar a família no Shopping, sabe como é, né?

- Você leva a vida muito a sério meu amigo.

Caminharam até a sala, onde havia mais um rapaz e três garotas de programa.

- Trouxe daquela, lá? Perguntou o rapaz.

- É lógico!!!

Fábio colocou sobre a mesa, 100 gramas de cocaína. Uma das mulheres serviu-lhe um copo de uísque e deu-lhe um beijo na boca. A festa começou.

Enquanto isso, na periferia...

João estava sentado na cozinha com sua esposa Maria. Sobre a mesa uma garrafa de café. Eles tomavam café em copos de massa de tomate e conversavam sobre a vida. Já passou muito tempo desde o dia em que se conheceram. Na sala seus quatro filhos brincavam montando um lego caseiro, feito de peças de madeira. O casal tinha uma escadinha de filhos, 8, 9, 11 e 13 anos de idade. O mais velho chamado Pedrinho, estava em frente à televisão.

- Como ele tá grande, né amor?

- É verdade, já é quase um vidaloka.

Nessa noite seria a primeira mutação de Pedrinho. Os vidaloka transformam-se em vidalokasomens durante os 13 e 14 anos de idade. Seus pais estavam apreensivos. Há meses Pedrinho está treinando em frente à televisão. Dali conseguiam ver lá na sala, ele estava em frente à televisão assistindo um programa e simulando uns sustos.
Os ponteiros do relógio trabalhavam firminho e as horas iam passando. Pedrinho começou a se sentir estranho e o olhar ingênuo foi transformando em um olhar malicioso. Correu pra porta de madeira do castelo de madeira, abriu e deu um rolê no quintal. Sentiu a presença da lua, como que mexendo com ele, convidando-o para conhecer algo novo,
incrível e misterioso. Ficou com medo e correu para dentro de novo, fechando a porta
rapidamente.

- Será que ele vai conseguir? perguntou Maria ao marido.

- Vai. Pode ficar tranqüila, vai dar tudo certo.

- Estou com medo, acho que deveríamos ir junto com ele.

- Sim, vamos. Mas ele não pode saber.

Meia noite em ponto, a lua cheia brilha firme no céu e ilumina os barracos. Pedrinho sentiu a presença da criança, tomou coragem e correu pra fora. Olhou pro céu e depois fechou os olhos, a claridade era assustadora para ele. A primeira vez é sempre assim. Ele sentiu seu corpo mudando e a inocência indo embora. Suas roupas rasgaram-se e no lugar surgiram outras, mais largas e coloridas. Uma bombeta branco e vinho com o símbolo VL (de vidaloka) cobriu sua cabeça. Na camiseta uma frase: Bimladem de Bombeta. Seus olhos avermelharam-se e ele saiu correndo em direção ao centro. João e Maria pediram para a filha de 11 anos cuidar dos demais e depois saíram pra fora. Transformaram-se e seguiram o rastro do Pedrinho em destino ao centro da cidade.

No centro da cidade, Fábio despede-se dos amigos após a bebedeira, cheradeira e orgia. Meio chapado entrou no carro e saiu em disparada para buscar a família no shopping. Em uma curva da estrada percebe alguém correndo e quando olha não acredita.

- Carái, um vidalokasomem!!!

João corria e sua camiseta brilhava, com o efeito da luz da lua. Exibia a seguinte frase: “Não tem alarme bom, quando o bom ladrão quer”. Fábio sentiu-se atraído pelo brilho da frase e estava quase lendo, mas conseguiu se segurar e olhou pro outro lado da rua. Não acreditou no que viu. Do outro lado estava Maria. Na sua blusinha uma frase completava a rima: “Cês dão taça de veneno e quer soufflé”. Fábio ficou hipnotizado, entrou em transe, perdeu a direção, bateu num ponto de ônibus e entrou em óbito na hora. Quase atropelou um mendigo. João gritou pra Maria do outro lado da rua:

- Antes ele do que o mendigo.

- É verdade. Só fazia peso na terra mesmo.

Pedrinho, chegou na boca do Shopping. Caminhou e entrou pela porta dos fundos sem o segurança perceber. Lentamente, sem ninguém ver, foi adentrando o shopping. Parou próximo a um Mc Donald's e ficou vendo as crianças felizes comendo seus Mc-lanches-felizes. Mais pra frente viu crianças se divertindo no jogo de fliperama. Crianças no cinema, no Kart, pescando ursinhos de pelúcia em máquinas, comendo chocolates, comidas saborosas, sorvetes. Lembrou que em sua casa só come arroz com feijão e começou a se questionar. Porque uns tem de tudo e outros não tem quase nada? Porque uns estão em palácios, mansões e outros em barracos, morando na rua?
Estava se transformando em um vidaloka. Chegou próximo de uma criança que descia alegremente por um escorregador e deu-lhe um tremendo susto. “Mãe, um vidalokasomem” gritou traumatizada a criança. Quando os seguranças chegaram, Pedrinho já estava longe. Seus pais o viram sair correndo do shopping e seguiram-lhe. Quando estava próximo do barraco, pegaram um atalho para chegar antes.
Pedrinho abriu a porta do barraco e caminhou a passos firmes até a sala. Mãe, pai e irmãos estavam a sua espera. No seu rosto um sorriso cabuloso.

- E aí filho, como foi? Tudo certo? perguntou a mãe.

- Pode acreditar. Respondeu alegremente.

- É assim mesmo filhão, o vidaloka é aquele que vai pra guerra.

POESIAS E PENSAMENTOS

O POETA DA ROÇA (Patativa do Assaré)

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mio.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça,
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da liga pesada, das roça e dos eito
E às vêz, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sôdade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com suas caçada,
Na noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o toro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão,

ULMUS MINAR

A folha, outra folha.
Onde a tua mão repousava,
O som de uma guitarra morre,
Esfacela-se na tarde sem remédio.

O jardineiro deixou mesmo de aparecer,
E não sei muito bem como medir-lhe
A ausência, o pequeno maço de Kentucky
Que escondia no bolso da farda,
Junto ao gasto coração.

Quem morre (e morre sempre
alguém em versos meus)
Faz de mim o espelho da sua derrota.

Mas nada posso dizer:
As folhas acumulam-se, nenhum jornal
Registrará o óbito do jardineiro,
Que sereia o terá levado,
Esse tipo de minúcias.

(Manuel de Freitas).


O grito

Eu quero
O grito mais alto
O tapa mais forte
O pulsar mais profundo
Insano

O soco na mesa
O sangue nos olhos
Saber o que quer
Lutar pelo que quer

Nada pode, ninguém contra ti
Nem você mesmo
Quebre o espelho que impede
Que de passos mais largos
Teu maior inimigo tem sua cara
A tua cabeça, teus olhos oscilantes
Não pode contra ti
Ninguém pode... ninguém!!!

(Mysk, Foz).

OS DIAS QUE NÃO DOEM (Por: Sérgio Vaz)


OS DIAS QUE NÃO DOEM (Por: Sérgio Vaz)

OS DIAS QUE NÃO DOEM (Por: Sérgio Vaz)


Não há mais como nomear as quartas-feiras no Sarau da Cooperifa, nem contá-las em versos ou prosa, por exemplo: a noite de ontem foi simplesmente inenarrável. Mágica. Sem truques. Uma daquelas noites em que a gente se lembra o porque de estarmos vivos, que é para celebrar a vida com tudo a que temos direito: riso e dor. Só que desta vez mais riso do que dor. A Lua sabe do que estou dizendo, ela estava lá, cheia, em silêncio por respeito aos poetas, para que fluísse a poesia. Ela viu tudo, e desta vez fomos nós, a comunidade, que fomos a sua fonte de inspiração, e tenho certeza que foi por nós que ela brilhava, para que a gente não se perdesse do caminho. Parece que todos haviam recebido um comunicado, o mesmo recado, e vinham de todos os lugares, dos becos, das favelas, do centro, do lado de dentro, do lado de fora, foi impossível contá-los sem abraçá-los. Traziam na garganta um grito entalado que vinha das galés do império romano e dos porões dos navios negreiros singrados da velha mãe África, e todos vinham carregados de feridas ainda expostas no peito nu, mas não havia lágrimas, apenas o clamor por liberdade. Liberdade! Liberdade! Liberdade! (Ô Povo lindo, ô povo inteligente!).

O Sarau da Cooperifa ficou pequeno para tantas vozes, que se juntavam a outras vozes, era como se ouvíssemos o Poeta João Cabral de melo Neto recitando, depois da dona Edite, "um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos". E cada um que recitava sua poesia era como se lançasse um grito, para que se juntasse a outros gritos, na intenção que todos esses gritos acordasse a humanidade. Você ouviu? Eram muitos os que gritavam, homens simples, mulheres dignas, uma gente a quem o capital insiste em escravizar, mas um povo que não admite ser escravizado. Por isso o conflito, e não tem nada a ver com poesia de prateleira de biblioteca. Tem a ver com a palavra da rua, é boca sem dente e descamisada. Órfã de pai e mãe. Sem certidão de nascimento, muito menos carteira profissional. É letra que corre sim pelas calçadas de chinelo de dedos, mas só que não tem varizes nem frieiras, e não deixa pegadas.

A Palavra livre nos torna livre. Livres, entendeu? Por aqui, agora, só apanha na cara quem quer. Lá, no sarau, escolhemos não dar a outra face, aliás, face nenhuma: bateu levou!
Um dia um intelectual disse que éramos exóticos, só porque pegávamos ônibus lotado e gostávamos de poesia: “Como pode esses ornitorrincos gostar de literatura?" - ironizou o homem da academia, levantando os halteres das letras para que outros dos seus também exeRcitassem a arrogância. Nesse caso, os sábios cantam como sabiás, mas dançam como caranguejos - nada contra os caranguejos. Mas quem foi que disse que a gente gosta de literatura? A gente gosta de Mané Garrincha, o bailarino das pernas tortas. De Cartola, Adoniran, Dolores, Sabotage. A gente gosta de roda de samba em cima da laje. De beijo na boca. De futebol de várzea. De boa educação. De casa pra morar. De trabalhar. De empinar pipa. De boteco. De cerveja gelada. De festa na quebrada. E de uma "pá" que não dá para escrever aqui. A gente gosta de rir, chora, mas a gente gosta mesmo é de sorrir, mas aí vem alguém e diz que "não pode", então a gente escreve sobre essas coisas, dos dias que doem e os dias que não.
A gente é casca de ferida que gosta de rir e chorar no papel, só isso. Não é literatura, é a vida.

É a vida o que realmente nos interessa.

*Neste sarau da Cooperifa de
Quarta-feira (16/07/08) tinha mais de
quatrocentas pessoas (recorde do ano), mais ou menos cinqüenta poetas, Mano Brow só foi mais um, um dos nossos.

*Aviso: o Sarau da Cooperifa pode causar dependência,
Foda-se!

Local: Rua Poesia de Solano Trindade, 100 (Condomínio dos Insurgentes literários)
Jardim dos Espinhos e das Ervas Daninhas. Ref: poesia poética da periferia, KM/página 33 (antes do pedágio), São Paulo - Capital Selvagem
Sem CEP/lado sul do Mapa.

Fone: não tem, mas liga nóis!

Entrada: 1KG de abraço não perecível ou um Litro de Alegria
(Não aceitamos saquinho de Vaidade, favor não insistir, quem tiver, não entra)
* a renda será toda revertida para a comunidade, o que sobrar nós vamos dividir ali mesmo.

Apoio Cultural: Uh, Cooperifa! Uh, Cooperifa!

Como chegar:

Passar longe do marasmo é fundamental, se vier de ônibus, desça antes da inveja, mas se vier de carro, venha pela marginal, é, pela literatura marginal ou periférica, as duas vias chegam lá. Da ponte pra cá, sempre à esquerda. Nunca à direita, nunca mesmo!
Suba a ladeira até o final e siga uma luz intensa que não se apaga e ilumina o seu caminho, quando ouvir barulho de risos e abraços, pode chegar que já chegou.
Permaneça na humildade, fora a poesia, ninguém é mais que ninguém. Anotou?

Fonte: www.colecionadordepedras.blogspot.com

óIA sÓ (Por Lizal)


ENQUADRO NAS ANTIGAS:

- Parado aí. Ta vindo da onde, ta indo pra onde? Qual seu signo? Que time torce? Tem passagem pela polícia?
Vai direto pra casa hein.

ENQUADRO HOJE EM DIA:

- Mãos na cabeça vagabundo. Não se mexe, se não vai levar bala e virar estatística. De qual bocada você ta vindo? Já fumou um baseadinho hoje? Quantos homicídios você tem?
Sai correndo que eu quero ver como eu to atirando hoje.

Polícia não traz segurança.
Segurança é Igualdade Social.
Mano Lizal é a favor da desmilitarização de todas as polícias.
...E também é a favor de um sistema que seja justo e trate as pessoas como seres humanos.

óIA sÓ (Por Lizal)

TRECHOS DA MATÉRIA DE JOÃO DE BARROS REVISTA CAROS AMIGOS MAIO DE 2008

(...) Quando a Prefeitura descobre que um lugar habitado por pobres está ficando valorizado, vê suas casas como “sujeira”. É preciso “limpar”, para “revitalizar a cidade”. O jeito mais comum é o despejo. No centro de São Paulo quase não se vê mais catador de lixo. A polícia metropolitana apreende as carroças. O objetivo é “limpar” o centrão, jogar a “sujeira” na periferia, o mais longe possível.
(...) A criminalização da pobreza está presente nas rampas antimendigos da avenida paulista, nos bancos com divisórias de ferro para ninguém deitar, nas praças cercadas de grades pontiagudas. O edifício Banespa, na praça da república, planejado pelo arquiteto Carlos Bratke, não tem marquise, para não dar abrigo.
(...) Constituição brasileira dita “cidadã”: Art. 6° São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta constituição.

(Carlos Loureiro coordenador do núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria pública da cidade de São Paulo foi questionado sobre os despejos e as favelas retiradas do centro. Ele filosofou: “Para a prefeitura não bastou assistir passivamente a este processo, e não fazer nada a fim de promover o bem-estar da população pobre. Resolveu fazer alguma coisa: promover o mal-estar, excluindo os pobres até do seu espaço de exclusão. Uma barbaridade”).

Frase de Tom Jobim:

“O mundo é o retrato da nossa incompetência”.

Disse um filósofozinho:

O Lula é o Fernando Henrique de barba.

POLÍTICOS, POLÍTICAS E ETC. 1.

Diz a história, que uma mão um loko foi procurar por Lênin, passou duas vezes por ele e não o reconheceu. Ele estava trabalhando numa construção e confundia-se com os demais operários.
Hoje tem socialistas de condomínio, carro importado, Laptop, Nike no pé e celular de última geração. Edy Rock cantou: “... ser herói com um celular de dois mil real”. Parabéns ao poeta Sérgio Vaz que fechou uma poesia sua com a seguinte frase: “os heróis de hoje são todos uns bunda-mole”.

(Lênin deve se remexer no túmulo)

Frase de Sto. Agostinho:

“Uma lei injusta não é lei”.

GRAFITE NO MURO DE UMA QUEBRADA

“Quem faz a miséria é o miserável”.

POLÍTICOS, POLÍTICAS E ETC. 2.

- Você viu a mancada do Vitorassi?
- Vi. E você viu o branco que deu na mente do Samis?

Música do grupo Racionais Mc's:

“Tenha fé porque até no lixão nasce flor”


NÚMEROS DA RODOVIÁRIA TIETÊ, SP.

Nos corredores do terminal,
60 mil passageiros passam todo dia.
100 mil cafezinhos e 12 toneladas de pão de queijo são consumidos por mês.
1,4 milhão de créditos telefônicos são consumidos nos orelhões, o que equivale a 46 mil horas de conversa.
O terminal abriga 63 lojas e onze quiosques.
Consomem 650 quilowatts de energia por hora.
9 milhões de litros de água.
Mil quilômetros de papel higiênico.
1806 funcionários trabalham em três turnos
e nos dias de grande faxina, desgrudam do chão,
300 quilos de chiclete.

(Dados retirados do artigo:
A Cidade das Coisas Perdidas.
Vanessa Bárbara. Revista Piauí nº 22,
Julho de 2008).

POLÍTICOS, POLÍTICAS E ETC. 3.

Na campanha eleitoral de 2004, um vereador trocou idéia com um mano que desenvolve um trabalho de ensinar artesanato para crianças de comunidades carentes. O mano disse que precisava de uma ajuda financeira para comprar o material: Palitos, cola etc. “Sensibilizado” com o corre voluntário do mano, o vereador ofereceu ajuda e prometeu que todo mês doaria uma caixa de palitos para ele poder continuar seu projeto. Passaram quatro anos e o mano continua com seu projeto, comprando o material com o dinheiro do próprio bolso. O vereador se elegeu, mas nenhuma caixa de palito foi doada.

(Agora em época eleitoral, com certeza o vereador aparecerá. Se marcar até com uma caixa de palito. E na cara dura vai dizer: “Demorou um pouco, mas eu prometo que as outras caixas vão chegar rapidinho. Vai ser dois palito”).

quinta-feira, 31 de julho de 2008

duelo de TITÃS

DIA 09 DE AGOSTO NO CASULO ROCk BAR / BAR DA CRIS...

DUELO DE TITÃS E MORTAL KOMBAT DE FREESTYLE...

SHOW COM CARTEL DO RAP.
DISCOTECAGENS DE DJS.
APRESENTAÇÃO DA CREW CARTEL DO BREAK

terça-feira, 15 de julho de 2008

FANZINE 38 / JULHO DE 2008

NÓIS FUMO, MAIS NÓIS VORTEMO!!!!

Salve amigos e amigas, leitores do Fanzine do Cartel do Rap. O grande Raúl Seixas foi bruxo ao cantar: “não pense que a cabeça agüenta se você parar”. O Fanzine já está a seis meses fora do ar e a saudade é enorme. Nós da Banca CDR, amantes da informação, resolvemos fazer essa edição e pedir apoio de todos para que possamos dar continuidade ao nosso projeto. Vamos continuar com o tráfico de informação, na medida do possível, e os eventos da Banca também acontecerão, mas por enquanto em períodos maiores; de dois em dois meses vamos organizar eventos, para não deixar a chama do movimento hip-hop apagar-se. Essa edição do fanzine vem com novidades. Estamos estreando o quadro Idéia pra periferia, do meu irmão de hospício Mano Edo, poeta, b. boy, arte-educador e estudante de letras em Foz do Iguaçu. A Carol, após viagem à Curitiba, traz um ensaio fotográfico para as páginas do zine. A história do Cidadão José segue seu ritmo, dando continuidade a Novela da Vida Real, que ficou de molho por esses seis meses. Jão vive mais uma triste história, mostrando como o ser humano é cruel e egoísta. Viajamos para Campo Mourão e cobrimos pelo segundo ano consecutivo o evento Rap é o Som Festival onde se reuniu grupos de rap de todo o interior do Paraná. Vocês vão conferir nas páginas seguintes diversos outros textos, artigos e poesias e uma entrevista muito loka com o mano Will Capa Preta, de Curitiba. Ele que colou em Foz do Iguaçu na Conferencia Livre do Movimento Hip-Hop, me encontrou novamente em Curitiba, num Congresso da UJS e me cedeu essa entrevista. Eu estava sem gravador, fiz as perguntas em um papel e ele enviou as respostas por e-mail. Voltamos com o quadro Um Grafite e os grafiteiros da cidade podem mandar seu trabalho para ser publicado no fanzine. O grafite desse mês é do mano Santiago que já grafitou por toda a cidade com o pseudônimo de Woloco!!!

Envie-nos sugestões, participem, escrevam para o fanzine. Leiam, comentem, divulguem, tirem xérox, espalhem... Sua ajuda é importante. Quem desejar ajudar financeiramente o fanzine entre em contato pelo e-mail:
fanzinecarteldorap@hotmail.com

Precisamos de ajuda para tirar as cópias e toda a contribuição será bem vinda. O Fanzine do Cartel agora está na Web. Acesse nosso Blog e tenha acesso às outras edições e fique sabendo dos eventos que estão sendo organizados: www.fanzinecarteldorap.blogspot.com.
Agradeço aqui a todos os leitores que acompanham o fanzine e me cobraram a continuidade dele. Todos os que sentiram sua falta e todos os que respeitam esse corre.

Um salve especial para o Mano Hood, de Guarapuava, por divulgar os textos do Zine em seu programa de rádio. Mano Hood é locutor do programa Sintonia Hip-Hop, da Rádio Cacique AM 760 e Rádio 92 Fm. O programa vai ao ar todo domingo das 17:00 hs as 18:00 hs e das 22:00 hs as 00:00 hs. Sintonizem pela internet: www.radio92fm.com.br e
www.radiocaciqueam.com.br

Outro salvão especial para a equipe do site Megafone de Foz do Iguaçu, por divulgar na Net os escritores e poetas independentes de nossa cidade. Acessem o site do megafone: www.megafone.inf.br.
A favela chora a perda do Mano Fuinha de Santa Terezinha, assassinado no mês de junho. Vamos orar por ele, e que ele olhe por nós.

Mano Fuinha descanse em Paz!!!

Boa leitura a todos e fiquem na paz!!!

Porque esse mundo precisa de paz.

UM GRAFITE (Woloco).

ATÉ QUANDO? (Por Lizal)

Ultimamente ando muito distraído. Se eu estou lendo algo, minha mente desconcentra-se do texto e começa a lembrar de outros fatos. Eu estava lendo uma poesia do poeta polonês Zbigniew Herbert e ela me lembrou de uma triste realidade de nossa história que aconteceu aqui em Foz do Iguaçu. A poesia chama-se Cinco Homens e narra em seus versos: “Eles os levam para fora de manhã / para o pátio de pedra / e os botam contra a parede / cinco homens / dois muitos jovens / os outros de meia idade (...) quando o pelotão / ergue as armas / tudo se revela de repente / na luz invasiva do óbvio / a parede amarela / o azul gelado / o fio preto na parede / em vez de um horizonte (...) antes da bala chegar / o olho percebe o vôo do projétil / o ouvido capta um rumor metálico / as narinas se enchem de fumaça amarga / uma pétala de sangue roça o céu da boca / o tato se encolhe e depois afrouxa / agora eles estão caídos na pedra (...)”.
Parei no meio da poesia e comecei a matutar. Já ouvi história parecida. Depois me lembrei da chacina que aconteceu na favela do Monsenhor Guilherme há mais de uma década atrás. O crime aconteceu no dia 10 de outubro de 1997. Oito policiais e um delegado invadiram a favela, capturaram quatro jovens e executaram-nos encostados num muro. Um jovem de18 anos, dois de 17 e um de 16, foram assassinados covardemente.
Me revoltei, fechei a revista e fui dar um rolê. Quando voltei, fui ler outra revista e me deparei com um texto do Ferrez de nome: O Som do Silêncio. O texto dizia: “A ave não voa ao contrário, por isso sem meias palavras, nem frases bonitas. (...) A máquina do tempo não poupa sofrimento. Senta na cadeira, em frente à mesa, onde sua maior arma está. Muita calma nessas horas, é preciso colocar o colete à prova de bala antes de digitar. (...) Nós perdemos o orgulho, enchemos os bares, gritamos pros policiais que somos programados pra morrer. (...) Ouça o som do silêncio filho. É só acordar, lavar o rosto e descer pra favela, os ratos cinzas vão te dar geral, enquanto a Blazer passa batida, cheia de droga pra abastecer, então é nesse dia que o moleque se revolta, tapa na cara faz ele mudar de propósito. Onde tá a paz que a gente está plantando?”.
Nessa hora desconcentro-me do texto e fico pensando, me perguntando. Onde está a paz que eu plantei? Há tempo estou ouvindo o som do silêncio. A chacina do Monsenhor está completando onze anos e nenhum policial foi julgado. Continuam na ativa em Foz do Iguaçu, fazendo vítimas e saindo impune. Quantos protestos feitos pra nada. Quantas poesias, quantos textos? Quantas letras de rap? As leis continuam jogando contra o povo da favela. E nós continuamos perdendo de goleada, levando lé da justiça que é injusta e falha.
O Ferrez fecha o seu texto com a seguinte frase: “Bem aventurados os que atiram primeiro, porque num dá resultado a fala, então fala a bala”.
Eu continuo lutando com outras armas.
Mas, até quando?

TESTE PRA ENTRAR NA PM

Responda sim ou não.

1- Sua mãe é suspeita de furto. Você a penduraria e aplicaria uns choques pra ela confessar?
2- No supermercado, você vê a mulher com bebê no colo pôr uma lata de leite em pó na bolsa. Leva-a presa sem uma ponta de compaixão, porque ela não passa de uma vagabunda como qualquer outra?
3- O rádio avisa: assaltaram uma loja. Passam três rapazes “suspeitos”, dois brancos e um negro. Você só consegue acertar um, então acerta o negro?
4- Você e um colega, fardados, estão bebendo em serviço; dois moços chegam ao bar e um deles comenta com o outro que isso não está certo: você e o colega ouvem e dão um “esculacho” neles, principalmente no “abelhudo”, certo?
5- Você reconhece a bordo de um carro de luxo o magnata que adulterou leite em pó das cestas básicas: chama-o de doutor e abre passagem dizendo de si para si que aquilo é com a Polícia Federal. Concorda?
6- Na favela, em caso de suspeita, primeiro atirar, depois perguntar: é a atitude correta?
7- Um garoto de 15 anos é acusado de roubo. Sua equipe chega à casa humilde de madrugada. Sem mandado, vocês entram berrando, lincham o menino em seu quarto, na presença da mãe e da irmã. Vocês agiram como bons policiais, porque não passava de um vagabundo, perfeito?
8- Um assaltante foge pelo túnel do metrô e aparece na estação central, lotada, há velhos, mulheres, crianças. Você saca o revólver e inicia o tiroteio, pondo em risco centenas de inocentes. Não faz mal, a polícia está acima de tudo, sim ou não?
9- Hoje em dia quase todo o mundo fuma seu baseadinho, inclusive em bairros nobres. Mas temos de ser contra a liberação, porque vamos perder um belo motivo de flagrante nas periferias, correto?
10- Direitos humanos para os humanos direitos eis a máxima que nos guia: bandido bom é bandido morto, positivo?

Se você respondeu “sim” às 10 questões, preenche os requisitos: será um peeme com louvor.
De 7 a 9: um dia você chega lá, caso se esforce tem que endurecer e jogar a ternura no lixo.
De 3 a 6: você precisa livrar-se dos complexos de culpa que o impedem de ser mais agressivo.
De 1 a 3: caso difícil. Quem sabe você consiga um serviço burocrático, tocar na banda da corporação.
Respondeu “não” a todas: caso perdido. Tente filosofia, poesia, trabalhos braçais, você é um reles humanista.

(Fonte: Coluna Enfermaria de Mylton Severiano revista Caros Amigos, n° 135).

UMA ENTREVISTA

Salveeeeee!!! O Fanzine do Cartel do Rap presenteia a favela com essa loca entrevista com o mano Will Capa preta, de Curitiba, Paraná. Oilson Antonio Alves (Will), 31 anos, natural de Água Doce, cidadezinha do interior de Santa Catarina, mudou-se para São Paulo ainda criança e hoje mora em Curitiba. Como toda criança pobre de periferia, já sofreu muitas mazelas: morou na rua, passou fome, apanhou da polícia... Conheceu o Movimento Hip-Hop em 1989 e completou em 2008, 17 anos de correria por essa cultura. Hoje faz parte de diversas organizações: FRF (Frente Revolucionária das Favelas), Associação 4 Elementos, Nação Hip-Hop Brasil e é candidato a vereador em Curitiba.


Z - Como foi a sua infância?

Will - A minha infância foi como a maioria dos irmãos negros ou pardos pobres do Brasil que nasceram e tiveram o inicio da sua infância no final dos anos 70 e inicio dos 80, ou seja, em um momento onde o Brasil estava ainda respirando o período da ditadura. De um lado a classe média sufocada pelo regime militar que proibia setores jovens de manifestar seu pensamento político, do outro lado os negros que não tinham nenhum direito constituído e respeitado. A minha infância até os dez anos foi marcada pela desestruturação familiar, e muita fome. Eu acredito que apesar do sofrimento de ver a minha mãe sendo espancada todos os dias pelo meu pai, carregando um sentimento de impotência, que só foi parcialmente superada quando eu atirei um copo de vidro em cima do olho do meu pai, para salvar a minha mãe que tinha uma faca pressionada no seu pescoço. Apesar desses acontecimentos, tive uma infância criativa, típico de criança da minha idade. Com 8 anos de idade fui preso inocentemente pela primeira vez e torturado pelo delegado da cidade, acusado de ter roubado um relógio de um menino da mesma idade que eu, a diferença que ele era rico e branco, e eu pobre e preto. O delegado me bateu com um arreio de cavalo e com muito ódio nos olhos. Apesar dessas circunstâncias eu sempre desenvolvi alternativas de sobrevivência, desde catar frutas silvestres, escalar pinheiro para derrubar pinha, e depois vender pinhão na cidade, roubar melancia e galinha da roça dos italianos, e vender maçã do amor no circo, quando visitavam a cidade. Posso dizer que eu e meus coleguinhas, todos pobres como eu, tivemos uma infância bem alimentada graças à natureza. Nós vivíamos caçando algo para comer e tomando banho de rio, afinal em casa não tinha comida e nem água encanada. Tudo isso aconteceu até os meus 10 anos de idade, quando minha mãe foi embora eu não vi mais nenhum sentido de continuar vivendo com o meu pai. É daí que começa o segundo capitulo da minha infância, “A Rua”, muito frio, muita fome, muita droga e sofrimento. Uma viagem de Água Doce até São Paulo, de uma pequena cidade de 10 mil habitantes para uma das ruas mais caóticas do mundo, fria e sem sentimento. Como cheguei em São Paulo? R: Trabalhei para um vendedor de abacaxi, com um caminhão Chevrolet velho, esse foi o meu passaporte.

Z - Como se deu seu envolvimento com o Hip Hop?

Will - Então eu tenho isso muito marcado e forte na minha vida. Em São Paulo eu era menino de rua, morava na Praça da Sé. Fazia parte de uma gangue de molecada, todos com corrente de cachorro no pescoço. Nós pedíamos dinheiro para comer, as vezes fazíamos uns “cavalo loko” nas velhinhas que passavam pela praça, ou ia procurar comida dentro das latas de lixo dos restaurantes. Tínhamos um tempo para fazer tudo, porque as 8:00hs começa os desenhos do programa da Xuxa. Não podíamos entrar na loja, então ficávamos na vitrine do lado de fora, tentando adivinhar o que os personagens diziam, porque o áudio era sempre desligado pelo gerente da loja. Em um dia desses eu vi um vídeo clip, com uns negrão cantando com muita raiva, cheios de correntes no pescoço, então comentei com um camarada, olha esses caras são como nós. Eu não sabia o que eles estavam fazendo, muito menos que aquilo era rap. Passado dois anos vim saber que aqueles negros com aquelas correntes eram o Public Enemy. “Aí meu já era, tudo dominado.” Nessa época eu tinha uns 12 anos de idade, ou seja em 1989, mas somente com uns 14 anos eu conheci (ouvi) os primeiros rappers nacionais, Thayde e Racionais. Mas somente com 16 anos comecei a entender a filosofia do Movimento Hip Hop e desenvolver a minha militância.

Z - Você faz parte da F.R.F (Frente Revolucionária das Favelas), é uma organização do Hip Hop? Em que área atua?

Will - Eu sou o idealizador da F.R.F, e acredito que deve ser uma organização não só do Movimento Hip-Hop, mas de todos os moradores de favelas, periferias e cortiços do Brasil. Eu parto do princípio de que ninguém cria ou constrói nada sozinho, nós precisamos sempre que outras pessoas sintam a necessidade de mudança, enxergar a sua própria realidade. Todos os Movimentos Sociais que surgiram no Brasil, a exemplo do MST, e agora com a FRF que tem a sua bandeira, construída aqui no Paraná, foram criados partindo de uma necessidade. Hoje o MST tem frentes no Brasil inteiro e desenvolvem um trabalho fundamental na luta pela Reforma Agrária. O mesmo queremos da FRF, o MST não tem o dever de sair do campo para promover a Reforma Urbana na cidade. Essa luta nos compete. Muitas pessoas acham que o Hip-Hop é um movimento simplesmente para ser artistas de periferia, mas esquecem que temos muitas outras necessidades básicas como moradia, trabalho, saúde, escola e qualidade de vida. A FRF vem para direcionar as lutas da periferia, mudar a visão do povo de que apenas os prefeitos das cidades e a burguesia mandam na cidade e dizem como e onde devemos morar. Queremos morar nas áreas que permitam uma maior mobilidade e acessibilidade a cidade. Não queremos mais ser empurrados para longe dos centros das cidades, apenas para os playboys construírem seus condomínios de luxo, seus shopping center. Vamos lutar pela Reforma Urbana, ocupar prédios e terrenos que não estejam desempenhando sua função social. Pressionar os prefeitos das cidades para elaboração de políticas públicas e investimentos pesados em moradias no sentido de suprir o grande déficit habitacional no Brasil inteiro.

Z - Qual é o envolvimento da FRF com a Nação Hip Hop Brasil e com outras organizações sociais?

Will - Tudo, e sou um militante da Nação Hip Hop Brasil. No final de 2006 teve um encontro nacional da Nação Hip Hop em Belo Horizonte. Eu apresentei essa bandeira para o Aliado G, ele não entendeu muito bem, pensava que era uma espécie de ONG igual a muitas outras. Então depois de muita conversa ele entendeu. A FRF é muito maior do que imaginamos, sabemos que teremos muitas dificuldades como ataques de setores conservadores, da burguesia brasileira, porque vamos meter o dedo na ferida. Temos um projeto de reconstrução da cidade para atender a todos, mas muitas pessoas não vão aceitar que o povo da periferia decida o seu destino, isso pode soar como uma grande ousadia para eles, mas para nós será a garantia dos nossos direitos, na forma de pressão popular. Nós temos apoio dos principais Movimentos Nacionais que trabalham diretamente com as questões de moradias como MNLM, CMP, CONAN, UMP, e outros movimentos. A maioria deles são compostos pelos próprios moradores das favelas, mas acreditamos que a FRF pode trazer a juventude e fortalecer a rebeldia das lutas populares.

Z - Como é a cena do Movimento Hip- Hop Curitibano hoje?

Will - O Hip-Hop Curitibano tem muitas coisas boas como por exemplo o Expresso da Rima, que há 4 anos organiza eventos, no coração de Curitiba, onde vários grupos se apresentam. Mas é importante ressaltar que não temos apoio de nenhuma estrutura do governo, seja Secretariaou Fundação Cultural. Hoje temos em Curitiba aproximadamente 200 grupos só de rap, o mais importante de tudo é que cada grupo tem características próprias. Mas de outro lado temos um grande problema com o inchaço do Hip-Hop. Temos muitos adeptos, mas na mesma proporção vários alienados, muitos se vestem como se fosse do Movimento, ou seja, calça larga, bombeta, peita de grupos de rap como Racionais, Facção Central, Sabotage, mas não entendem nada e não conhecem a historia do Hip-Hop. Hoje nosso problema não é fazer o Movimento Hip-Hop crescer, mas dar conta dos que já fazem parte, politizar e formar novos militantes.

Z - A CUFA (RJ) tem um núcleo em Curitiba? Qual é a ajuda dessa organização no Movimento Hip-Hop Curitibano?

Will - A Cufa, todos sabem, é uma ONG. O seu fundador é ex policial da Rota de São Paulo, o Celso Athaíde. Todos nós sabemos o que a Rota representa para os mano de São Paulo. O Mv Bill é um músico, um puta músico, mas é apenas um mascote da Cufa. Na verdade quem comanda essa entidade são pessoas que não tem nada haver com o Hip-Hop. Em Curitiba é o Davi o responsável, mas a sua equipe vai de universitário, professor de capoeira, a qualquer um que gosta de tudo que aparece na Globo. Em Curitiba só piorou porque eles tentam comprar tudo sempre dizendo que tem muito dinheiro, os manos cabeça fraca cresce o olho e “vão cegos de joelhos”. A Cufa não é um Movimento Social, apenas entrega a favela de bandeja para a Globo. Por fim quando alguém fala com entusiasmos da Cufa em Curitiba vira piada... (Risos).

Z - O que o Hip-Hop significa para você?

Will - Porra irmão muitas coisas. Não é algo tão simples, eu canto solo e todos me conhecem por Will Capa Preta, tenho muito respeito pelo Movimento Hip-Hop, porque tenho certeza que se não tivesse o encontrado, eu já não estaria mais vivo. O Hip-Hop para mim vai além do imaginável, é transcendente, é onde eu busco a minha força e orientação para a vida. Eu devo muitas coisas para o Movimento e não aceito a falta de compromisso de alguns rappers preocupados apenas com dinheiro e fama, mesmo porque tenho uma outra visão do Hip-Hop. Eu acredito muito no potencial transformador. Gostaria que todos se sentissem como guardiões desta Expressão Sociocultural.

Z Hip-Hop e Política... É a “mão e a luva” ou “água e óleo?

Will - Lógico que é a mão e a luva, nós temos que entender que existe política em tudo que fazemos, a nossa própria relação em casa com a família. Quando acaba o gás por exemplo e você tá desempregado, não tem dinheiro, tudo que passa pela cabeça nesse momento é como fazer para resolver o problema. Como e com quem vai conseguir dinheiro, você vai emprestar, vai fazer um assalto, ou comprar fiado? O processo de convencimento do amigo ou mesmo o dono da empresa de gás a vender fiado, é política. Tudo que inclui planejamento e estratégia é política. Acontece que na política convencional nós é que sempre estivemos distante. A rejeição pela política por parte do povo se deve ao fato que deixamos sempre os nossos destinos nas mãos daqueles que sempre nos exploraram. Analisando de forma mais crítica fica fácil saber por que nada muda para nós, não é verdade? Temos que construir uma unidade de força popular, fortalecer os irmãos do próprio Movimento Hip-Hop, e começar a disputar esses espaços de poder econômico, não para si mesmo, mas para o coletivo. Nós temos capacidade de conquistar muitas coisas, mas da forma que fazemos é errada, não representamos uma ameaça de fato para ninguém. Se quisermos estabelecer as nossas conquistas somente da forma que o sistema nos empurrou, já sabemos qual será o nosso fim. A revolução precisa de financiamento e devemos brigar pela fatia do mercado econômico, que por muitos anos está na mão dos nossos inimigos. E o que eles não querem que saibamos, é que a Política é o caminho mais rápido e fácil para nossa ascensão.

Z - Em Curitiba tem o prêmio de Hip-Hop chamado 5 Elementos. Qual a importância deste prêmio e do Hutus?

Will - Na verdade o premio 5 Elementos não existe mais, eu poderia dizer que era uma coisa boa, mas não foi. O premio 5 Elementos fazia parte de uma vaidade individual, eram sempre os mesmos que ganhavam e acabou caindo na rejeição dos irmão. Eu particularmente no início achava legal, mas depois percebemos que só dividia a rapaziada, depois não acho que alguém pode julgar se essa musica é legal, ou aquela é ruim. Cada irmão escreve música da forma que vê o mundo. Sobre o Hutus a minha visão é a mesma, perdeu a essência e acabou premiando sempre os mesmos.

Z - Finalizando, deixe uma idéia pros leitores do fanzine.


Will - Eu gostaria de elogiar o seu Fanzine que é uma iniciativa extremamente importante, é um material alternativo que chega aonde os meios de comunicação convencional não chegam. A prova disso é que eu conheci o trabalho do Lizal e a cena do Movimento Hip-Hop de Foz do Iguaçu pelo seu Zine. Eu não sou muito bom para conselho, mas gosto de por o meu ponto de vista. Eu acho que a rapaziada do movimento Hip-Hop precisa ampliar o seu conhecimento, somente assim vamos ser ouvidos, temos que ter conhecimento de causa e ousadia. As iniciativas como essa que veiculam informações verdadeiras e críticas fortalecem mais elementos para a conscientização e mobilização da juventude. Quero mandar um abraço para todos os irmãos que conheci em Foz, e dizer que temos que trabalhar em sincronia afinal o Movimento Hip-Hop não tem Fronteiras.

Mais um Cidadão José, Cap. 28

Mais um Cidadão José, Cap. 28

José sentou-se nos tijolos no chão, cumprimentou os malucos e ficou em silêncio. Havia mais de trinta pessoas na casa. Alguns desconhecidos para ele. “Deve ser os loko que trampam no outro turno” pensou. Quem começou a reunião foi o Mano Branco, pois o Mano Gê ainda não havia chegado. Dois malucos seguraram um mapa aberto na parede, e ele com uma régua na mão começou a explicar novamente a rota do tráfico. Dessa vez o mapa trazia mais detalhes e alguns dados. A quantidade de droga, armas e contrabando que passam aproximadamente por toda a fronteira. Em outro mapa mostrava todo o trajeto do Rio Paraná e os futuros portos clandestinos que serão abertos. Disse quantos homens trabalharão em cada região somando um total de 400 loko, 50 em cada porto. Quando o Mano Branco falava, seus olhos brilhavam cifrões. Um maluco bolou um baseado e começou a fumar. Outro acendeu um cigarro. Logo tinha vários lokos fumando e a fumaça tomou toda a casa (tipo nas reuniões de Marx, Engels e Bakunim, quando trabalhavam num jornal clandestino e reuniam-se em uma pequena sala). Mas a revolução ali era outra. Dali não sairia as escrituras do Manifesto Comunista. Não sairia as idéias anarquistas de Bakunim. Dali não sairia homens espalhando a ideologia socialista. Jornais independentes distribuídos clandestinamente. Cartazes colados nas paredes das fábricas. Muros pichados com frases revolucionárias. A conversa era outra. Dali sairia armas de destruição: toneladas de drogas pra abastecer esse gigantão chamado Brasil. Metralhadoras, granadas, revólveres de diversos calibres e munição que não acaba mais (carro sem gasolina não anda). Quando o Estado é falho, o crime se organiza e José, o simples cidadão José, caiu de pára-quedas. O destino é frio e calculista e faz tricô com a vida dos malucos. Se o seu caminho não é bordado a fé, você pode cair numa das armadilhas desse jogo mortal. Ali estava José, sem estudo, sem escudo, sem proteção e com duas opções: Se apoiar nessa nova família e buscar um cargo no mais alto escalão do tráfico, quem sabe viajar e conhecer outros países da América Latina, Colômbia, Bolívia; ou poderia abandonar tudo e se exilar em outra cidade, se mocosar numa cidadezinha do interior e tentar vida nova, trabalhando na roça.
Um carro estaciona próximo dali e interrompe seus pensamentos. O som estava ligado e a música alta atrapalhou a reunião. A música atravessou as paredes de madeira e os loko puderam ouvir: “revolução, vem do coração / preste atenção, se liga ladrão”. Os malucos saíram pra fora pra ver quem estava chegando. O som tava bem alto, o porta mala aberto mostrava as cornetas e os alto-falantes novos que o Mano Gê tinha colocado em seu carro. Em um canto ele conversava com um chinês e a música continuava: “Entre as dez mais violentas do Brasil, Foz ta na fita / E se tu se orgulha disso a sua estupidez me irrita / Campeã da venda de maconha coca e brita / Sempre no disbaratino se não a PIC complica / Ladrão de apetite por aqui tem de monte / Tipo aqueles que ganharam o Banco do Brasil da ponte (...)”.
- Carái!!!! Que sonzêra!!! disse um maluco que segurava um baseado. - É o som daqueles malucos que cantaram aqui na quebrada aquela mão, no show do rap. Lembra? Falou outro maluco.
- Do show eu lembro, do som não, eu tava muito chapado. Ahahahah...
- Então você tava normal. Ahahahahhaah.
Mano Gê desligou o som, entrou na casa e fez um gesto pedindo pros malucos entrarem. Dois lokos que estavam com ele trouxe uma caixa cheia de envelopes e colocou no chão. O chinês ficou no carro. Mano Gê tirou uma quadrada prateada da cintura e colocou sobre a mesa. De dentro da caixa tirou um livro: A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Leu em voz alta um trecho do livro:
- A guerra é de vital importância para o Estado; é o domínio da vida ou da morte, o caminho para a sobrevivência ou a perda do Império: é preciso manejá-la bem. Não refletir seriamente sobre tudo o que lhe concerne é dar prova de uma culpável indiferença no que diz respeito à conservação ou à perda do que nos é mais querido; e isso não deve ocorrer entre nós.
Enquanto falava, estufava o peito, como um general a exibir suas medalhas.
- Na guerra vocês tem que ser rápidos como o trovão, que retumba antes de que possam tapar os ouvidos e velozes como o relâmpago que brilha antes de que possas piscar.
Largou o livro e ergueu a caixa com os envelopes sobre a mesa. Continuou a falar:
- Os guerreiros superiores atacam enquanto os inimigos estão projetando seus planos. Logo desfazem suas alianças. É imprescindível lutar contra todas as facções inimigas para obter uma vitória completa, de maneira que o beneficio seja total. Esta é a lei da estratégia.
Continuou a falar e dessa vez olhando fixamente para o Mano Branco.
- Para o êxito positivo de uma batalha é imprescindível a ajuda de espiões. Os espiões devem fidelidade total aos seus generais. Se algum assunto de espionagem seja divulgado antes que o espião seja informado, este e o que o divulgou deve ser eliminado.
Após declarar isso, acenou com a cabeça para os dois rapazes que estavam aoseu lado e eles foram até o Mano Branco. Seguraram ele pelo braço e saíram porta á fora seguindo à caminho da barranca. José não botava fé no que estava acontecendo. Logo o Mano Branco que era o seu truta de trampo mais chegado. E se estava fazendo aquilo com ele, que era de confiança, imagina o que poderia fazer com os demais.
- Trairagem não será tolerada nesse exército. Todos aqui são importantes, mas ninguém é insubstituível. disse Mano Gê, com tom ameaçador.
Quando acabou de falar, ouviu-se quatro tiros seguidos, fazendo eco lá na barranca do rio. O corpo de José estremeceu, uma lágrima quis sair de seus olhos, mas ele a conteve, para evitar desconfianças. O Mano Gê, com a ajuda dos dois malucos que voltaram, distribuiu um envelope para cada pessoa presente na reunião. Pediu para que prestassem bem atenção que não explicaria uma segunda vez.
- Nossos inimigos são esses que estão dentro desses envelopes. Quando zerarmos eles, não teremos mais preocupações, o caminho estará aberto para executarmos o nosso plano. O controle do tráfico será nosso e será o fim da miséria. Dentro de cada envelope tem todas as informações sobre a pessoa que vocês terão de zerar. Nome, endereço, telefone, local de trabalho, fotos, locais que freqüentam, horários etc... Tem também uma quantia em dinheiro de 3.000 reais para poderem executar o serviço com segurança. Das 40 pessoas que teremos que dar fim a princípio, 6 são policiais. E quem teve a sorte de pegar o envelope que está um gambé, depois do serviço feito vai ganhar uma gratificação extra de dois mil reais. O prazo pra fazer o trabalho é de 15 dias. Boa sorte pra todos.

(Lizal. Na próxima edição, mais um capítulo)

Idéia Pra Periferia (Mano Edo)

Um salve para todos os guerreiros e guerreiras do movimento Hip-Hop de Foz e região. Esta é uma nova coluna que está sendo iniciada no Zine do Cartel do Rap. Agradeço a Deus e a todos por participar compartilhando com a Cultura de Rua.

Idéia do bairro (Por: Mano Edo)

Num dia de tempo nublado na favela da Morenitas II, região do Porto Meira, periferia de Foz. Dois meninos, quando andavam, falavam de pescaria. E como o tempo estava nublado resolveram tentar pescar em uma valeta que passa pelo meio da favela, que no caso seria em frente à casa de um dos meninos que resolvera pescar. Os barracos que se pode observar ali são de alta escassez, um verdadeiro “Castelo de Madeira” sem estrutura e qualidade de vida. Porém o meio nos influência a morar em lugares como esses, além de tudo, como a violência que está estampada em diversos habitantes da localidade. Momentos de martírio e discriminação como preconceitos de classes sempre há em lugares como este. Os dois meninos foram então até onde se localiza um terreno que a Prefeitura administra que é o Horto Municipal de Foz do Iguaçu, para solucionar o problema arrancando minhocas para começarem a pescar. De enxadas na mão de um menino com o nome de Gustavo e a lata para apanharem as minhocas na mão do outro menino de apelido Gugu, morador da favela desde quando fora invadida. Quando o tempo começou a garoar Gugu disse para o Gustavo andar rápido para que eles conseguissem chegar a casa de Gugu para pegar uma outra lata, porém, maior um pouco, que é para colocarem as morenitas, tilápias, mussuns e lambaris quando pescarem. Saindo da cerca do terreno do Horto um menino que passava com um cavalo cavalgando ficou olhando os dois meninos saindo do Horto com a lata e a ferramenta que ajudou a arrancar as minhocas. Gustavo fixou os olhos para o cavaleiro infantil e expressou que um sonho dele era conhecer as Cataratas à cavalo e também conhecer o rio Paraná para pescar. Até no momento Gustavo apenas conhecia cavalo olhando, nem na escola ele nunca havia escrito a palavra cavalo. Repetente de anos de séries na escola, o que dominava era os pequenos peixes que pescava quando tinha sorte, e ainda na angustia, de ficar com fome quando não havia sorte.

TRABALHO SOCIAL:

Como o Cartel do Rap já há anos vem fazendo sucesso como Cultura em Foz, o Mano Edo, camarada dos irmãos do movimento, também está fazendo a sua parte em parceria com o Cartel do Rap. Em determinadas reuniões da organização foi fundada a CREW de Break da banca: CARTEL DO BREAK, onde as aulas estão sendo praticadas na Casa Branca, ministradas pelo Arte-educador Mano Edo. A luta continua: a Crew Cartel do Break com propostas em forma de projeto consegue conquistar mais um espaço para fortalecer o elemento break em Foz, desta vez no ColégioGustavo Dobrandino da Silva, com a autorização da diretora Maria. E as oficinas de break na SCNSA (Sociedade Civil Nossa Senhora Aparecida) no projeto CAIA (Centro de Atenção Integral ao Adolescente) estão na ativa já faz um ano. Para a banca e os interessados em aprender um pouco da verdade do break ou ser um b.boy ou b. girl as aulas tem início às 14:00 hs e término às 16:00 hs, nas quartas feiras e nos sábados. Entrem em contato: 91067734

(Mano Edo é poeta, b. boy, arte-educador e estudante de letras em Foz do Iguaçu).

Poesias e Pensamentos

Crime Imperdoável

Com sua filha de bondade infinda,
Maria Rita, encantadora e bela,
Morava a viúva dona Carolinda,
Junto ao engenho do senhor Favela.

Paciente e boa e cheia de carinho,
Passava os dias sem pensar na dor
Reinava ali, naquele tosco ninho,
Um grande exemplo do mais puro amor.

A linda jovem, flor de simpatia,
De olhos brilhantes e cabelo louro,
Além de arrimo e doce companhia
Era da mãe o virginal tesouro.

Tinha uma voz harmoniosa e grata
Maria Rita, a filha da viúva,
Igual a voz do sabiá da mata,
Quando êle canta na primeira chuva.

Maurício, um filho do senhor do engenho,
Um estudante, bacharel futuro,
Apaixonou-se, com o maior empenho
De saciar o coração impuro.

E com promessas de um porvir brilhante,
Fazendo juras de casar com ela,
Tanto insistiu o traidor pedante
Que conquistou a infeliz donzela.

Tornou-se em pranto da menina o riso,
Anuveou-se o doce amor materno,
Aquêle rancho, que era um paraíso,
Foi transformado em verdadeiro inferno.

Depois, expulsas pelo mundo afora,
Sorvendo a taça de amargo fel,
Soluça a mãe e a triste filha chora,
Horrorizadas do chacal cruel.

Vive o monstro a prosseguir no estudo,
Enquanto o manto da miséria as cobre,
Porque só o rico tem direito a tudo,
Não há justiça para quem é pobre...

(Patativa do Assaré)


De tudo
Compartilharei com meu amor,
desde as mais secretas confidências
até os mais singelos elogios,
desde os mais insistentes pigarros,
até, os mais barulhentos escarros.

(Marcus)



Mesmo que aumente

Mesmo que aumente a dor da ferida,
Remédio haverá que a cure.

Mesmo que perdurem os dias de prisão,
Dia virá em que seremos livres.

(Siddîq Turkistânî)


ROMEU E JULIETA

Romeu era cego,
Mas quando conheceu Julieta
Foi amor à primeira vista.
Julieta enxergava bem,
Mas ficou cega de amor
Quando viu Romeu.
Nos becos e vielas
Não se fala de outra coisa:
A história de Shakespeare
Na versão da favela.
Ah, as famílias que eram contra,
Se mataram com o veneno
Da inveja.


(Sérgio Vaz)


(f) ODE A FOZ

Foz feia / Foz fascinante
Foz fétida / Foz fraterna
Foz fulêra / Foz fiel
Foz falsa / Foz fina
Foz falida / Foz formosa
Foz fiasquenta / Foz faceira
Foz fedorenta / Foz famosa
Foz fajuta / Foz feliz
Foz facínora / Foz favela

(Lizal, Foz)

Poema da morte

Tomem meu sangue.
Tomem meu sudário e
Meus restos mortais.
Tirem fotografias de meu cadáver
na cova, solitário.
Espalhem-nas pelo mundo,
Entre os juízes e
Pessoas de consciência,
Entre os homens de princípios
e os justos.

E que eles arquem com o fardo culposo,
perante o mundo,
Desta alma inocente.
Que arquem com o fardo,
perante seus filhos e a História,
Desta alma desperdiçada, impoluta,
Desta alma que sofreu nas mãos dos
“protetores da paz”.

(Jum'ah Al-Dûssarî)

Desperte!

Do silêncio dormente
Da voz que se cala
Do vazio da mente
E da fome que abala.
Abra a boca que já não fala,
Abra os olhos
Do corpo que rala.

(Carol, Foz)


A SAFRA

Em meu quintal
Na minha horta
Plantei uma semente
Brotou uma planta
Continuei a plantar
Plantei um pé de rosa
Nasceu uma roseira
Com lindas rosas
E também plantei uma casa
E nasceu um lar unido
Plantei a amizade
E nasceu uma amizade e tanto
Semeei a alegria
Germinou a felicidade
Plantei um tijolo
Nasceu uma cidade
Plantei a ignorância
Brotou a violência
Plantei uma desgraça
Nasceu a miséria
Plantei a sabedoria
Nasceram as tecnologias
Na minha horta
Tudo aquilo que plantei
Tanto hoje como amanhã
Vamos colher

(Edson de Carvalho, Foz).

ENSAIO FOTOGRÁFICO (Carol)

Sobre a importância de nos verem fracos.

“Todos Juntos Somos Fortes Não Há Nada A Temer” (Chico Buarque)

Nós somos tão pequenos e inseguros que não confiamos na nossa força. Mas, ao mesmo tempo, somos tão grandes e imponentes que não conseguimos medir nossos passos. Nessa nossa dualidade, deixamos que um ventinho tolo e individualista apagasse nossa chama sem questionar. Nosso fogo, então, frágil e sem luz foi perdendo a força que tinha para resistir a imposições violentas e hipócritas. Nesta terra fria e apagada, que aprendemos a aceitar, muitas diferenças são inexplicáveis e inaceitáveis. São diferenças que nos agridem, porém não lhes atribuímos o nome de violência-palavrinha com um conceito bem amplo.

Para Pierre Bordieu, Sociólogo Francês, a violência pode ser conceituada como todo e qualquer ato de coerção de uma força sobre a outra, sem que seja percebida como tal por estar inserida nas tramas de relações de poder naturalizadas. Como, por exemplo, as pessoas que não podem assumir o que são; pessoas que são discriminadas pela sua cor; quando nos obrigam a ouvir e calar; se nos são negados subsídios básicos de sobrevivência como saúde, educação, moradia e cidadania. Quando nos ferem com sua selvageria, nos mostram como somos fracos e aceitando essa idéia não vemos soluções para nossos problemas.

Contudo, qual o interesse para nos verem apáticos e sem mobilidade? Eu penso que se nos chamam de fracos é por que sabem da força do nosso punho. Se nos chamam de incapazes é porque sabem da nossa capacidade de organização. E se somos tudo isso por que tanto medo? Eles sabem que vai chegar a hora em que cansaremos de ver as crianças nas ruas, que cansaremos de ser desrespeitados, que cansaremos de ficar pedindo esmola e que, finalmente, descobriremos a grandeza da nossa existência e da nossa importância na construção de um mundo mais justo.

(Carol é estudante de letras em Foz)